JPC: Políticos deveriam fazer exames psicológicos e neurológicos regulares

Ilustra

De João Pereira Coutinho, escritor português e doutor em ciência política, na Folha de S. Paulo:

O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. É um dos ensinamentos mais conhecidos de Lord Acton (1834-1902). Assino embaixo.
Experiência pessoal: em 20 anos de jornalismo, conheci muitos políticos e entrevistei vários. Com raríssimas exceções, todos exibiam um nível de imbecilidade que me impressionava e assustava. Não existem diferenças ideológicas. Bastava ocuparem lugares de poder para a imbecilidade se manifestar.

Cautela: não falo de “imbecilidade” no sentido prosaico do termo -burrice, estupidez, ignorância- embora existissem exemplares que também cumpriam esse papel.
Não, não. Falo de um outro tipo de imbecilidade: uma certa alienação face ao mundo, como se este mundo não existisse. Eu, modestamente, habitava o planeta Terra. Eles já estavam numa galáxia distante, onde os gestos, a linguagem e até o senso comum dos terráqueos deixavam de fazer sentido.
Tempos depois, quando assistia à queda de alguns -por incompetência, impopularidade ou até corrupção-, o que espantava não era apenas a infantilidade dos delitos. Era a surpresa dos personagens perante a queda.
Como se um gigante meteorito tivesse aterrado em cima das suas cabeças. Como explicar tanta alienação?
A ciência acaba de dar uma ajuda. Leio na “Atlantic Monthly” um artigo de Jerry Useem que recomendo. Conta o autor que a psicologia e as neurociências têm chegado às mesmas conclusões: o poder pode provocar no cérebro uma espécie de lesão.
Dacher Keltner, psicólogo de Berkeley, e Sukhvinder Obhi, neurocientista canadense, estudaram o assunto. Em termos comportamentais (Keltner) ou neuroestruturais (Obhi), o poder tende a inibir a capacidade empática dos poderosos.
Explico melhor. Todos somos seres sociais. Todos agimos e reagimos de acordo com o reflexo que obtemos dos outros. Nenhum homem é uma ilha, já dizia o poeta.
Em situações de poder, essa dinâmica se altera, até por razões conjunturais: o homem poderoso tende a rodear-se por uma corte de bajuladores que aplaude automaticamente as suas palavras e gestos.
Sem nenhuma sinalização exterior e dispondo de recursos que escapam aos meros mortais, o homem poderoso caminha na escuridão como se estivesse em pleno dia.
Para os meros mortais, os seus atos podem ser impulsivos, nefastos ou simplesmente criminosos. Para ele, são necessários, benéficos e muito acima da moralidade comum. Ele é um caso de impunidade porque os circuitos inibitórios estão, digamos assim, anestesiados.
Para a ciência, essas lesões podem ser temporárias ou duradouras. Mas existe uma forma de aliviar ou reverter os sintomas: por meio de lições de humildade. Como, por exemplo, recordar a um homem de poder os momentos da sua vida em que ele rastejou por este vale de lágrimas. Dizem os pesquisadores que o cérebro, até do ponto de vista imagiológico, volta a funcionar direito quando há essa “suspensão da irrealidade”.
Nada que os antigos não soubessem já. O imperador Marco Aurélio, caminhando por Roma, fazia questão de ter um escravo ao lado para lhe dizer ao ouvido: “És apenas um ser mortal”. Mas Marco Aurélio, apesar de mortal, era também um sábio -e a democracia não é o regime dos sábios.
Se as relações entre o poder e o cérebro podem ser problemáticas para os cidadãos, alguns ajustes inspirados pela ciência deveriam ser tentados.
O primeiro seria tornar os mandatos mais curtos (e, obviamente, não renováveis). Encurtar o tempo no poder é uma forma de profilaxia para que as loucuras da dominação não deformem a cabeça humana.
O segundo é admitir que mesmo mandatos curtos podem fazer os seus estragos. Deveria existir uma cláusula constitucional que obrigasse titulares de cargos políticos à realização de exames psicológicos e neurológicos regulares. Só com resultados limpos seria possível continuar.
Finalmente, se as lições de humildade tendem a repor equilíbrios perdidos, defendo há muitos anos a revitalização histórica do “bobo da corte”: depois das reuniões formais, o bobo entrava em cena para ridicularizar severamente o líder e os seus asseclas. O bobo seria intocável e inimputável.
Por outro lado, qualquer presidente ou ministro deveria ser obrigado a viver uma semana de cada mês nas mesmas condições de quem recebe o salário mínimo. Para adquirir uma certa perspectiva em falta.
“És apenas um ser mortal”, dizia o escravo ao imperador. Felizmente, já não há escravos. Mas ainda subsistem homens doentes que se julgam imortais.

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Começou em jornal aos 14 anos, foi editor-chefe dos três jornais diários de Maringá. Pioneiro em blog político, repórter e apresentador de programa de televisão, apresentador de programa político nas rádios Jornal, Difusora e Banda 1, comentarista das rádios Metropolitana e Guairacá, editor de diversos jornais e revistas, como Umuarama Ilustrado, Correio da Cidade, Expresso Paraná, Maringá M9 e Página 9. Atualmente integra o cast da Jovem Pan Maringá.

7 pitacos em “JPC: Políticos deveriam fazer exames psicológicos e neurológicos regulares

  1. A quem interessar possa…!

    “Quando a Biblia diz para orar e vigiar não eh a vida dos outros e sim a sua.” (a.d.)

    Vide 1 Corintios 6, Apocalipse 21 e Apocalipse 22 para saber melhor o que a Sagrada Escritura adverte…!

    APARECIDO BAPTISTA (cidadão maringaense ‘ficha limpa’ desde criança)

  2. InsetiCido Bostista diz:

    Tem pitaqueiro do Rigão que também deveria fazer exames psicológicos regulares, e quem sabe nunca mais poder chegar perto da internet, pra poupar as pessoas de merdas religiosas que copia e cola aqui, sem o menor critério. Esses retardados de deus empobrecem muito a experiência de ler o blogue.

    • Oh ‘escarnecedor’, vide mais o que estah escrito em Lucas 12 e Mateus 24. E se ainda assim continuar insistindo contra a Palavra de Deus, eh soh pedir que lhe indico muitos outros motivos para cuidar da sua vida e não da ‘loucura’ (“tu o dizes”) de outrem que, apenas e tão somente estah a oferecer-lhe a oportunidade de repensar sua existência enquanto ainda tem tempo para refletir sobre a ‘sua’ vida (depois não adianta chorar, pois, se continuar nessa balada de considerar a outrem como louco por difundir a Palavra de Deus, depois não adianta chorar quando estiver sentado no colo do ‘tinhoso’. “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”…!

      APARECIDO BAPTISTA (cidadão maringaense ‘ficha limpa’ desde criança e crente no cumprimento da Palavra de Deus)

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