O menino de 10 anos que comanda o país

Por Marcella Franco, na Folha de S. Paulo:

A psicanálise deve explicar a mania que meu filho tem de se fazer de desentendido de vez em quando. A dinâmica é simples: eu peço algo a ele ou questiono um aspecto de seu comportamento, ele devolve com uma pergunta irritante, como se não fizesse ideia do que estou falando, e, nessa ignorância simulada, acaba conseguindo exatamente o oposto do que esperava – no lugar da simpatia, a minha mais profunda ira.

Ele tem 10 anos. Freud, se vivo fosse, talvez defendesse que é justamente essa a época de se portar dessa maneira, que é mesmo a essa altura da infância que os meninos simulam ingenuidade para conquistar o afeto alheio, que deve ser fase passageira, que a gente se acalme e que tudo passa. Não precisa confiscar o PlayStation, moderaria Sigmund.
Acontece que tem coisas que nem a análise da psique humana explica, e há garotos que crescem adotando a mesma tática até a meia idade. Pagando de trouxa em busca de quem se identifique e solidarize.
A pergunta do presidente da República, por exemplo, postada em suas redes sociais, não tem nem um único caractere de ingenuidade. Sabe de nada, inocente, você que compra um tuíte daqueles como se o questionamento fosse real. Até onde sabemos, não há débitos da NET constando no endereço do Palácio da Alvorada, de modo que o Google funciona por lá tão bem quanto em qualquer outra casa com Wi-Fi no país.
Assim, digitar uma dúvida para 3.49 milhões de pessoas ao invés de consultar a maior enciclopédia anônima da internet não é sinal de inexperiência – pelo contrário, é atitude consciente e bem pensada. Feito os meninos de 10 anos, o presidente dissimula para despistar um erro, na expectativa de que a audiência perdoe a cagada de alguém tão incauto.
Lá em casa, esse tipo de comportamento não é aceito. Sempre que se repete, na melhor das hipóteses o moleque tem a atenção chamada. Na pior, perde o videogame e fica sem refrigerante uma semana. A cartilha da nossa família recomenda que cada um arque com as consequências dos seus tuítes e das suas escolhas.
Se preferiu postar um vídeo arbitrário tendo tantas outras opções à disposição, Jair Bolsonaro deveria, no mínimo, tocar o barco com outras pautas nos próximos posts, sem jamais fingir demência na tentativa de encobrir a imprudência. Optou, no entanto, pela tática dos garotos, e agora se vê às voltas com uma repercussão internacional vergonhosa e desagradável. Eu, no lugar da dona Olinda, suspendia o GTA Five e a Coca Cola Zero por um prazo indefinido.
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(*) Jornalista e escritora

(Foto Marcelo Camargo/Abr)

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.