“Meu maior incômodo”

Do leitor Paulo Sergio:

Não sou intelectual, jornalista, sindicalista, servidor público, petista ou tucano. Sou um simples brasileiro, contribuinte, quase anônimo, visto apenas como um número de CPF pelas pessoas poderosas que ajudo a sustentar com os impostos que pago. Não ganho o suficiente para pagar um plano de saúde, por isso estou há dez anos sem ir ao médico. Tenho 52 anos e há seis meses estou na fila de espera por uma consulta para – pela primeira vez – fazer exame de próstata. Graças a Deus tenho saúde para aguentar a espera (tomara!!!). Mas não é da minha próstata que quero falar… pra falar verdade nem queria que mexessem nela. Meu maior incômodo, no momento, está naquela simpática geringonça eletrônica que vai apontar o novo Presidente da República. Nada tenho contra a tecnologia, mas estou assustado com o que ela vai mostrar no domingo. São duas fotos, dois rostos, duas pessoas e, hipoteticamente, eu teria de escolher uma delas.
Teria, porque não vou. Dispenso esse “ato de civismo”, porque nenhuma das duas figurinhas foi “cívica” nos seis meses de invasão à minha casa. Duas, não. São três. Tem outra escondida atrás daquela com sorriso falso e rosto idem. E quem está sozinho é tão assustador quanto a dupla dissimulada.
O que fazer, então? Viajar? Não tenho dinheiro. Justificar o voto? É proibido para quem está no domicílio eleitoral. Pagar multa? Sim, essa é a saída. Se economizar um pouco, consigo juntar R$ 3,50. Mas por quê? Sou covarde? Estou fugindo da responsabilidade de cidadão, que deve pensar no futuro do país?
Não. Sou apenas um cidadão que não aceita mais a imposição de duas quadrilhas que disputam o poder. Não moro em favela do Rio de Janeiro pra ter de enfrentar esse tipo de guerra. A batalha que sempre defendi é a de argumentos, debates, ideias e projetos políticos. Vimos isso em algum momento? Não. Até agora o que vi foram dois aprendizes de ator representando muito mal. Não conseguiriam sequer uma ponta em filme de quinta categoria.
Se fosse futebol – pra usar a linguagem que o chefe de uma das quadrilhas mais gosta – eu diria que nesse campeonato só vai ter um perdedor: o processo democrático brasileiro. Um time grande, sem cores definidas, vai vencer de goleada. Líder absoluto na tabela, o PMDB já é campeão. Vai mandar e desmandar no campo, escalar quem quiser e dobrar o preço do ingresso.
O time de vermelho, PT, que já teve uma torcida fiel, entrou no esquema da federação, comprou juízes e jogadores, mas vai empatar a final. Fica como está, mandando no estádio. O outro clube, de azul, PSDB, tem o uniforme mais elegante, mas também adora acertar tudo nos bastidores. Vai continuar mandando nos grandes torneios (São Paulo, Minas Gerais, Paraná etc.). Não tem com o que se preocupar. Com o empate, vermelhos e azuis acham melhor evitar a disputa por pênaltis e vão dividir o título.
Quem perde, então?? Só os torcedores, pobres abestados que pagam ingressos, compram camisas e no final assistem a uma grande marmelada. E o palhaço, o que é? Deputado federal. Legítimo representante do nosso povo. Pensando bem, é o único legítimo representante do nosso povo.