De Laércio Souto Maior, meu primeiro editor, no Jornal Água Verde, de Curitiba:
Às vésperas do golpe militar de 1964, o jovem líder estudantil, recém formado em Odontologia, José Richa, foi eleito deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC), indo compor a ala esquerda do seu partido. Dois anos depois, os militares através do Ato Institucional nº 2 (AI-2), dissolveu os partidos políticos fundados para disputar as eleições da Constituinte de 1946. Emergiram no lugar dos velhos partidos duas agremiações criadas artificialmente para atuar politicamente no período ditatorial: a Arena (governista), e o MDB(oposição). No Paraná, a reunião que decidiu pela fundação imediata do MDB, realizou-se no centro da cidade de Londrina, dentro de um fusquinha. Participaram do histórico encontro o deputado federal José Richa, pelo PDC; o deputado federal Renato Celidônio [de Maringá], pelo PTB; o deputado estadual Sinval Martins, pelo PSD; e o corretor de café, Zízimo de Carvalho, pelo Partido Comunista Brasileiro – PCB. Posteriormente, as lideranças acima mencionadas se uniram com os udenistas comandados pelo governador Carlos Lacerda, para fundarem o movimento da Frente Ampla liderado pelos presidentes João Goulart e Juscelino Kubistchek. Em abril de 1968, o regime militar tornou a Frente Ampla ilegal, decretando a sua extinção.
José Richa, reelegeu-se deputado federal, foi eleito prefeito de Londrina, a mais importante cidade do Norte do estado, senador da República, e governador do Estado do Paraná, em plena ditadura militar, no governo do general João Batista Figueiredo. No seu governo ele convidou para participar no primeiro, segundo e terceiro escalão da administração, comunistas, socialistas e sociais democratas de todas as tendências e facções. Destacamos naquele universo ideológico, o secretário de Estado da Justiça, Horácio Raccanello Filho; o diretor-geral da Secretaria de Estado da Justiça, Juarez Cirino dos Santos; o diretor do Departamento de Naturalizações de Estrangeiros e do Cadastro das Serventias de Justiça, da Seju, Laércio Souto Maior; a assessora de Imprensa, Noemi Osna; o assessor Especial da Seju, Adolpho Mariano da Costa; o chefe do GAS da Seju, Geraldo Seratiuk; o chefe da Casa Civil, Euclides Scalco; o secretário de Estado do Planejamento, Otto Bracarense; os secretários da Agricultura, Claus Germer e Francisco Albuquerque Netto; o diretor do Departamento de Economia Rural – Deral, da Secretaria de Estado da Agricultura, Horácio Martins de Carvalho e sua equipe composta por Nilo Cesar Jordão Ramos, Rossane Silva, Osvaldo Heller e Jorge Samek; a secretária de Estado da Educação, Gilda Poli; o assessor de Imprensa da SEDU, Luiz Manfredini; a diretora do Departamento de Assuntos Universitários, Lízia Helena Nagel; o secretário de Estado do Interior, Newton Friedrich; os assessores de Imprensa da Secretaria de Estado do Interior, Benedito Pires Trindade e Fábio Campana; o coordenador estadual das Hortas Comunitárias, João Eineck; o secretário de Estado da Segurança Pública, Haggi Mussi; Assis Lemos; Judith Trindade; Luiz Gonzaga Ferreira; Hermógenes Laziero; secretário de Estado da Saúde, Luiz Cordoni; o Secretário de Estado de Assuntos Comunitários Antenor Bomfim; e muitos outros destacados quadros de esquerda como as professoras Aurora Laroca, Maria Aparecida Pimentel Arruda, o engenheiro Ivo Pugnaloni, Manoel Barbosa (Barbozinha), Hilária Zimowiski, e o Mário Figueiredo ajudaram o governo José Richa a ser um dos melhores de toda a história política do Paraná.
Era tão ostensiva a presença da esquerda nos quadros dirigentes do governo do estado – em plena ditadura militar -, que o governador José Richa foi convocado a Brasília pelo general Figueiredo, o ditador de plantão, para explicar o porque do grande número de comunistas, socialistas e sociais democratas atuando em postos importantes na administração paranaense. A resposta do sempre bem humorado governador José Richa desarmou o carrancudo general: “Presidente, pode ficar sossegado que vou cuidar bem dos comunistas, são todos meus amigos”. O general não teve dúvida e terminou a audiência com uma boa gargalhada. Essa história me foi contada, de viva voz, pelo governador no seu escritório na Avenida República Argentina, na presença da minha companheira professora Cidinha Arruda. E foi assim que o democrata cristão José Richa compôs a equipe de governo mais esquerdista entre todos os governos que administraram o Paraná.
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(*) Laércio Souto Maior é advogado, historiador e jornalista. Autor dos livros “Luiz Carlos Prestes na Poesia”, “Introdução ao Pensamento de Manoel Bomfim”, e “São os Nordestinos uma Minoria Racial?”.