O som da fábrica de metal

Por Marcos Lauer Amaral Camargo:

1) alambrados e rolamentos
Um conforto passageiro pode não ser exatamente o de um passageiro confortavelmente sentado em sua poltrona do voo inaugural Maringá – Nova Iorque, confirmado para as 21h30 desta quinta-feira. Um conforto passageiro pode sucumbir ao barulho de alumínio, roldana e aço das portas de lojas fechadas ao soar dos relógios às 18 horas. Sem expediente as pessoas caminham com ingênua lentidão para suas casas, numa quase nítida vontade de não chegar tão rapidamente. Parecem torcer para que algo as detenha nas ruas, tempo suficiente de espantar os fantasmas do fogão e da louça de metal amontoada sobre a pia. A aproximação ao lar não desce tão bem quanto à cerveja do bar do Azevedo, especialista em contos fora de moda e polvilho azedo. A superestrutura do mercado, organizado em turnos de trabalho, compõe a rotina das pessoas que, sem perceber, ajudam a montar uma partitura única. Não estou falando dos passageiros que vão embarcar no voo inaugural Maringá-Nova Iorque que sai nesta quinta-feira as 21h30. Não se trata de propaganda e sim de uma constatação em que a frase repetida sugere a certeza do embarque.  

2) artilharia naval
Pensar de forma original requer minuciosa leitura do que escreveram com muita propriedade os autores de uma dezena de requififes estilhaçados, losangos de brinquedo e outros objetos do mundo recreativo das palavras para não copiá-los. Lembro-me daquele que deitava falação e do outro que desafiava os muros nos tempos em que o grafite era uma novidade. Se não vivi a semana de 22, vivo mensalmente desta corvéia (provinciana). Tenho a plena convicção de que aquele trabalho no mosteiro, que resultou na aquisição daquela taça de alumínio, inspirou o poeta a rabiscar os versos: “aquele mau monge de antanho, assim como quem quer e come ranho, vejo uma mexerica no pomar e não a apanho”. O mote é o que sustenta o esquife literário e eu não tinha mesmo vocação para o sacerdócio criativo, embora minha fisionomia de santo barroco pudesse induzir algumas beatas a suplicar em meu nome com rosários apertados nas mãos. Minha oração não está subordinada a nenhuma análise. Por exemplo: submarino a pique no F-8. Apesar da baixa, minha batalha naval está a pleno vapor. Tenho o cabo armeiro bem protegido, o hidroavião cheio de combustível e o encouraçado com cinco bombardeiros no alto à direita da folha quadriculada. Também posso remover cópias de uma outra arte e trazer à tona uma aldeia submersa. Faz parte da retórica, mas há controvérsias quanto ao método utilizado. Posso convidar o capitão da fragata a brindar com meus companheiros e a recriar figuras de um painel qualquer em Jaboatão. E ainda disponho de uma jangada que, lançada ao mar, pode encher os cestos de vime neste dia perfeito para capturar os peixes banana.

3) carteirinha de vacinas
Hoje tomei duas vacinas, uma contra o tétano e outra contra a hepatite B em um posto de saúde pública na região sul da cidade. Ganhei uma carteirinha que a enfermeira disse ser um importante documento. Estou feliz com minha carteirinha de vacinas. Tem gente que fica contente quando tira documentos. Fica olhando para eles à noite quando todos vão dormir, sonhando com a possibilidade de apresentá-los em uma situação importante como a de mostrar ao supervisor da agência no aviso de chamada para o embarque. Não tenho intenção de fugir desta ilha gramatical, mas ficaria contente com uma proteção espiritual, sem muito alarde, dessas que só a nós acomete receber. Continuo a duvidar do fracasso – passo que posso – destruir, que estranho método, que delicado vício. E não me incomodo se perguntarem em qual sinal mnemônico o raciocínio emergiu do lago dialético com um efeito tão devastador que superou os emanados pelas vacinas recém-tomadas. Se a bula assusta em sua redação capital, o capital foi escrito justamente para servir de posologia. Vide Kant e sua idéia de insalubridade.

4) alimentação frugal
Do sorriso o bem estar se nutre e os dentes pouco atrito causam, pois uma vez aberta, a boca não neles toca. O Jesus banguelo do titã Arnaldo era um mutante. Dante, em seu inferno, havia prognosticado as agruras de um império em meio a uma volúpia de impropérios, coisa bem danada, difícil até de diluir em doses homeopáticas. Eu – e vocês se lembram bem – já estava vacinado contra esse tipo de gracejo. Vejo apenas as coisas que me agradam. Este é o melhor remédio, vendido sem controle nem contra indicação. Não disponho de receituário, tampouco minha carta aos viajantes explica o procedimento em casos de euforia. Recomendo apenas uma alimentação frugal. Tina era boa cozinheira e preparava deliciosos quitutes matinais. Tia Velha também não ficava atrás, mas isso já é história de um outro memorial. Até segunda ordem, devo ficar aqui na praia, observando o remanso das ondas, sentindo o cheiro do mangue e catando galhos cobertos de piche trazidos pelas marés.

5) faixas decorativas
Uma mulher de meia idade, gorda, usando um vestido de bolinhas coloridas segurando uma sombrinha igualmente colorida sob um sol de 37 graus, caminha devagar em uma rua de chão batido na cidade do interior do Paraná. Da casa onde vejo a mulher também posso ouvir ao longe o som da gaita de boca do sorveteiro de chinelo de dedos e boné. Na minha escola pude usar os cadernos de aritmética e caligrafia e completava a segunda coluna de acordo com a primeira. Dona Alzira era o nome da mulher que caminhava com a sombrinha no sol ardente. Cézanne não pintaria um quadro melhor, pois não saberia do vendedor de picolés. É como um desenho feito em pastel sem uso de borracha para melhorar a sombra, nem compasso, esquadro ou transferidor, objetos diretos das faixas decorativas ensinadas com maestria nas aulas de educação artística. Com a devida licença dos colegas de classe, não posso me furtar de obter feito um lalau de um lápis absurdamente disponível.
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(*) Marcos Lauer Amaral Camargo/Maringá-PR