De Jorge Ulisses Guerra Villalobos:
Terminei de ler um texto de Clóvis Rossi (“Algo se move, mas o que é?”, sábado 26 de março de 2011, Folha de S. Paulo), gosto do estilo dele que é direto e sempre provocativo, no sentido de despertar no leitor algo novo a respeito de temas educacionais. Certamente uma questão no centro do debate quando falamos de desenvolvimento. O artigo que comento trata das modificações sociais que têm sua causa imediata nas atitudes dos jovens da denominada “geração economicamente frustrada”. Essa geração é aquela nascida em meados dos anos 80 e que hoje com os estudos superiores concluídos busca no mercado de trabalho emprego e não estágio. Que, aliás, também deseja uma moradia para deixar a casa dos pais, e montar o cantinho, porém a moradia está cara, o transporte caro e o combustível cada vez com mais água para manter uns preços relativamente acessíveis. Como se isso não fosse suficiente passam a viver com uma forte sensação que o mundo, a cidade, a rua está cada dia mais perigosa. Assim, nessas reflexões, terminei lembrando os protestos nas ruas pelos idos 1979, isso numa praça de uma antiga cidade colonial da “fruta do conde”, éramos jovens nas ruas buscando Democracia. Mas tarde em meados dos anos 90 nas ruas de Barcino (nome romano de Barcelona) onde as manifestações começavam na Praça Catalunya, e eram protestos por trabalho, moradia e “otras cositas”. Não é que estou saudoso, mas a memória evoca e a vista dos fatos recentes acontecidos na Praça de Tahrir no Cairo, também apareceu na minha lembrança a Praça da Paz Celestial na China, em particular aquela imagem de um jovem parando um tanque; a praça Pérola no Bahreim, cujo símbolo foi destruídos dias depois da morte dos jovens que ali manifestavam; a praça da Candelária (RJ) trazida à memória por uma fotografia de Evandro Teixeira “Revolução dos Estudantes” de 1968; e a mesma praça lembrança da chacina dos jovens abandonados que moravam ao amparo da marquise da igreja; a praça da Sé naquela magnífica imagem captada por Juca Martins no ano de 1978, cujo título era algo assim como “Manifestação popular contra o custo de vida” e as fotografia das praças cheias pela luta das diretas já; e as praças ocupadas por jovens no fora Collor, que hoje voltou.
A praça é lugar público por essência, território das manifestações coletivas, assim, parece que não há nada mais coletivo que a leitura que os jovens realizam do mundo. Pois ao final é do futuro coletivo de todos eles que tratamos, tanto hoje como ontem e pelo que se sente nas ruas, prometemos demais. No entanto, desde há muito tempo são os próprios jovens os que devem encontrar a solução. Prometemos energia limpa e deixamos as usinas nucleares se multiplicarem; prometemos emprego e deixamos as relações flexíveis e precárias; prometemos ensino de qualidade e deixamos atraso; prometemos abundância e deixamos alimentos contaminados com agrotóxicos e antibióticos; falamos de ética e deixamos a corrupção… Triste é que por essa herança do século XX, dizem o mais “glorioso” de toda a história humana, muitos dos jovens já nunca chegaram a velhos. Bem fazem eles em protestar!!!
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(*) Jorge Ulisses Guerra Villalobos é professor da UEM.