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Meu velho

Do monsenhor Orivaldo Robles:

Estivesse vivo, neste mês meu pai completaria 97 anos. Idade tão longa, forçoso é convir, ninguém alcança com vida de qualidade. Sobretudo quem, como ele, arcou com todo tipo de doenças nos seus derradeiros 20 anos. Ainda assim, duro na queda, só se entregou no quarto enfarte. Foi homem extremamente simples. Chegou criança ao Brasil. Como outros chefes de família pobres e sem futuro na Europa, meu avô emigrou da Espanha. Primeiro, para a Argentina, com os três filhos mais velhos, capazes de trabalhar.
A avó ficou em casa com os tios Tomás, Maria, Felicidad e o caçula da ninhada, meu pai, de três anos, talvez menos. Como sobreviveram só Deus sabe. Oito anos depois, a família voltou a se reunir, agora no Brasil, para onde viera meu avô com os tios. Então, chamou da Espanha o restante da família. A imigração trazia espanhóis aos montes. O pai sempre recordava a passagem do navio por Gibraltar, a travessia do oceano e o desembarque em Santos. 

Foi no início dos anos 20. A saga familiar conheceu um episódio novelesco. Por causa de uma namoradinha, tio Santiago ficou na Argentina. Numa das estações, aproveitando distração dos outros, saltou do trem, que se punha em movimento. O pai viveu e morreu sem conhecê-lo. Desconhecer o próprio irmão, calcule!
Dispondo apenas dos braços, foram trabalhar na roça. Era o destino de camponeses pobres e ignorantes como eles. Dedicaram-se à formação de lavouras de café em Taiúva (SP). Para lá se encaminhavam, na época, bandos de emigrantes espanhóis. Tempos depois, meu avô levou a família para o sertão de São José do Rio Preto.
Sua pouca leitura o pai adquiriu à custa de três meses de escola, não sei onde nem quando. Ainda me questiono como adquiriu a sabedoria de vida que possuía. Quando estudante de Filosofia aconteceu-me receber noções que dele, no seu linguajar inculto, em criança, eu já tinha ouvido.
O pai era mesmo de outro tempo. Melhor que Deus o tenha chamado faz quase 30 anos. Iria estranhar um mundo em que já não valem princípios sobre os quais assentou sua vida inteira. Não aceitava que pudesse alguém falar uma coisa e fazer outra. Compromisso para ele era dívida a pagar mesmo com dano financeiro, dor física ou sofrimento interior. Jamais o vi romper, minimamente que fosse, palavra empenhada. Aderia à verdade de forma absoluta, quase feroz.
Simplesmente não contava com mentira. Mais de uma vez sofreu prejuízo por acreditar nas pessoas. Mas recusava aprender a infeliz lição. Negava-se a admitir que a palavra se prestasse a outro uso que não a verdade. Mantinha uma honestidade de cunho roceiro: transparente, ingênua e radical. Para os “espertos”, que hoje infestam o mundo, ele seria um tolo fácil de levar no bico. Julgava todos a partir de sua integridade pessoal e de sua crença no bem. Com ele aprendi a franqueza que até pode magoar, mas enganar, jamais.
Fé simples, bondade, paciência e espírito conciliador, virtudes que nele pareciam brotar sem esforço, fizeram-no credor do respeito de quantos o conheceram. Unicamente ao trabalho e à família dedicou cada um de seus dias. O pai também mereceu se dizer dele que “passou pela vida fazendo o bem”. Morreu pobre de não ter um gato pra puxar pelo rabo.
Não vejo dificuldade em chamar Deus de Pai. Acho que ser pai é trazer algo da figura e da atuação de Deus para este mundo insano. Alguns conseguem. Tive a sorte de ver isso lá em casa.

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(*) Monsenhor Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá

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