De Maria Newnum:.
Relendo esse texto, me vejo voltando aos meus tempos de menina, onde já percebia que meu pai e seus amigos desacreditavam da política e preferiam tomar cerveja, ver futebol e mulheres peladas nas revistas. Enquanto isso, minha mãe lidava com muita dificuldade para garantir escola e atendimento de saúde pública para as quatro filhas. De lá para cá as coisas não evoluíram: o futebol e a cerveja ainda continuam gerindo a vida de muitos homens e como sempre, cabe às mulheres, na maioria dos casos, a rotina de amanhecerem nas filas de postos de saúde e hospitais públicos clamando, como pedintes, socorro para suas crianças, velhos e maridos doentes.
Infelizmente, mesmo após a eleição da primeira presidenta do Brasil, a maioria das mulheres ainda não entende o espaço político como lugar de mulher. E isso fica muito evidente nos debates atuais sobre a recomposição do número de vagas nas Câmaras Municipais no Brasil.
Quase não se ouve a opinião de mulheres sobre o assunto e isso se deve em grande parte pela forma com que certos setores da imprensa paga estão tratando a recomposição das vagas nas Câmaras Municipais no Brasil como “aumento” de gastos, omitindo informações relevantes sobre o teto previsto na Lei Orgânica de cada município que impede que os gastos nas câmaras municipais não ultrapassem 5% da arrecadação municipal. Ou seja, via de regra, é como se na feira, nós mulheres pagássemos o valor fixo de 23 ovos e só levássemos 15 para casa. Que vantagem, é essa?
É importante que as mulheres, em especial as mulheres pobres, compreendam que a recomposição do número de vagas nas Câmaras municipais em todo país é uma possibilidade de renovação e substituição de vereadores homens que, em sua maioria, por décadas esquentam as cadeiras das câmaras municipais, estaduais e federais sem considerarem as lutas diárias travadas pelas mulheres desse país.
É aceitável que mulheres gostem de cerveja e futebol, mas desgostar de política é um absurdo para nós que dependemos da política, do nascer ao morrer.
“Delegar a política só aos homens não é coisa de mulher inteligente” – Frase anônima.
.___________
Foto: Em Maringá, vereador Zebrão PP ouve jogo no radinho de pilha, enquanto o vereador Humberto Henrique (PT) discursa.
____________
Maria Newnum é articulista, pedagoga, mestre em teologia prática, e assessora de imprensa da www.assindi.org.br/