Os estudantes da USP e nossa mídia golpista
De Donizete Oliveira, jornalista e professor em Maringá:
Não sei por que causou tanto frisson a ocupação do prédio da reitoria da USP pelos estudantes. A maioria dos comentários, imagens e escritos que vi na mídia condenava os estudantes. De repente, uma espécie de medo latente veio à tona. Tratam aqueles ocupantes como um bando de malfeitores, que representa perigo à sociedade.
O sujeito é mesmo “assujeitado” como dizia Michel Pêcheux e sempre reforça minha orientadora Maria Célia. Ou seja, não somos donos de nosso discurso. Apenas repetimos o “já dito”.
Mas não desanimemos com esse prognóstico da análise do discurso. Mesmo “assujeitados”, não precisamos ser sabujos do poder e propagadores de uma ideologia dominante. Entretanto, muita gente não se contenta em entrar no inferno. O sujeito chega lá e vê aquele cenário horrendo. Ele aproveita para dar um abraço no capeta. E sela o pacto. Assim age boa parte da mídia.
Dizer que os estudantes que ocuparam o prédio da reitoria da USP não tinham um propósito – é jogar no vazio. Eles estavam lá porque não queriam a polícia no campus.
Uso de drogas não deve ser caso de polícia. Até a legislação entende assim. O pior é que isso ocorre dentro de uma universidade, onde deveriam vigorar o diálogo e o bom-senso. Até por conta dos preceitos pedagógicos ali ensinados.
O problema da USP e de outras universidades públicas vai além da presença da polícia nos campi. É o sucateamento da infraestrutura. Paredes rachadas, canos estourados, banheiros fétidos, campus desguarnecido, entre outras questões administrativas.
Algumas constroem alas modernas que logo ficam com as beiradas do forro cheias de teia de arranha por falta de zeladoras. A expansão da estrutura física não condiz com os recursos humanos. Sem falar da falta de professores.
Antes de pôr a polícia dentro dos campi, deveriam investir na segurança interna. Instalar uma patrulha treinada e munida de equipamentos para fiscalizar o espaço universitário. Melhorar a iluminação externa e cobrar investimentos necessários dos responsáveis.
Infelizmente, isso parece não fazer parte do plano de quem administra certas universidades. O que se vê são expansões na base do improviso. Talvez, porque satisfaça o ego de gente, cuja preocupação passa longe de uma educação de qualidade.
Portanto, nada justifica tamanho repúdio aos estudantes da USP. O fato de eles estarem lá é um bom sinal. Significa que há estudantes comprometidos, sim.
Não vivi no tempo da ditadura militar, mas o que se via lá era o mesmo comportamento da maioria dos órgãos de imprensa. Eles diziam que a luta de Marighella não tinha causa. Tratava-se apenas de um terrorista. Que Lamarca não passava de um desertor. Mas o que eles queriam era um país melhor. Assim também são os estudantes da USP.
A visão golpista de nossa mídia continua acesa. Se o país amanhecesse envolto por um golpe militar, certamente não teríamos muito mais do que uma “Última Hora” para defender a legalidade.
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