De José Boromelo:
Esta é a mensagem tácita que os vereadores da Cidade Canção mandaram aos eleitores com a aprovação, em primeira discussão, de um projeto de lei que define seus subsídios em R$ 6,9 mil. Já não era sem tempo dessa novela ter um fim, pois há alguns meses a população aguarda o desfecho da trapalhada legislativa. A participação popular foi assídua, com manifestações de entidades organizadas, imprensa e cidadãos indignados e que acabaram surtindo o efeito desejado.
De tudo o que se viu até agora, a única certeza é que os vereadores, mais uma vez, se mostraram coesos com seus interesses, mas nada preocupados com o dispêndio que o anteriormente pretendido aumento em seus subsídios causaria aos cofres públicos. Então, num acordo surpreendente, eis que surge a “iluminada” ideia de aprovar aqueles quase sete mil reais. O que teria acontecido para tamanho antagonismo de intenções, lá e cá, depois de tanta polêmica? A dúvida permanece latente e não convence nem o mais indiferente dos cidadãos maringaenses.
Diante das variáveis repentinas e uma enxurrada de justificativas e ponderações dos nobres pares, a constatação é inegável: a Casa de leis foi atingida por uma onda avassaladora de demagogia explícita e ilustra perfeitamente a postura de seus membros diante da indignação popular. Em ano eleitoral, nada mais oportuno (depois de tanta confusão) tentar “afagar” o eleitor com decisões eleitoreiras e demagógicas. E onde fica a ética, requisito básico para representar o cidadão com a necessária isenção? Foi colocada para escanteio, mais uma vez. É de se imaginar que pensem dessa forma, caso contrário seguiriam a lógica da controversa proposta que provocou toda essa celeuma.
No Brasil, os legítimos representantes do povo mostram uma tendência corporativista insuperável, que acabam provocando discussões e questionamentos a respeito de suas decisões, enquanto investidos em cargos eletivos. O comprometimento com a causa pública é relegado a um segundo plano, no momento em que os interesses pessoais prevalecem aos do coletivo. A remuneração pelos serviços prestados pelos parlamentares deveria contemplar as despesas inerentes ao cargo, e não uma expressiva quantia como acontece atualmente, em todas as esferas dos entes federados. É uma equação díspar, uma vez que a exigência por produtividade e freqüência não consta no rol das atribuições dos membros do parlamento, diferentemente do que ocorre na iniciativa privada.
É fato comum o parlamentar brasileiro pretender transformar o cargo em profissão. E com apoios a diferentes correntes políticas cujos interesses variam conforme a relevância do tema, a condenada prática do “toma lá, dá cá” acaba prevalecendo. Assim, os integrantes do jogo político serão sempre privilegiados, fato que os credenciam a participar de decisões importantes nas respectivas casas legislativas. A imagem do parlamentar perante os eleitores permanece em evidência e a reeleição é garantida. Não se justifica, portanto, a atitude dos representantes maringaenses (em sua maioria composta por profissionais liberais) que independem de remuneração oficial, da propositura de uma matéria que venha a destoar completamente dos anseios da coletividade. Muito menos a demonstração de ausência total de senso crítico quando da apresentação da mais recente proposta sobre a (singular?) redução de seus subsídios. Se antes eles queriam, agora não querem mais? É uma postura de difícil compreensão, notadamente marcada por incoerências e que não condiz com uma conduta inflexível, característica maior exigida do servidor público no exercício de suas funções.
O eleitor tem o poder único de mudar o rumo dos acontecimentos. E tomar uma atitude decisiva esquecendo definitivamente os contumazes usurários dos parcos recursos públicos, elegendo aqueles realmente comprometidos com a causa pública. Que se amparam em propostas concretas, alicerçadas nos anseios legítimos da coletividade, na busca pela verdadeira cidadania.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.