A arte de engolir sapos

De José Luiz Boromelo:
Nessa vida agitada da atualidade o ser humano está sujeito a incontáveis embaraços presentes no caminho. Podemos encontrá-los nos mais diferentes ambientes, sob as mais inusitadas formas, mas dificilmente conseguiremos escapar dos aborrecimentos que nos causam. Isso acontece porque convivemos com pessoas que têm personalidades, pensamentos e reações distintas. E em cada situação exige-se uma atitude à altura para solucionar ou minimizar os impasses criados pelas opiniões divergentes. Seja no lar, no trabalho, no lazer, no convívio social, nas relações do comércio e principalmente na famigerada política, diariamente somos compelidos a praticar o custoso exercício de “engolir sapos”. Que pode tornar-se uma tarefa das mais complicadas, dependendo do diâmetro e da elasticidade de nossa garganta nessa empreitada.
O saudoso Francisco Silveira Rocha, ilustre marialvense que exerceu o mandato de deputado estadual no período de 1951 a 1954 imortalizou uma frase, que se mostra mais atual que nunca. Dizia ele, do alto de sua experiência legislativa que “A política é a difícil arte de engolir sapos”. Complementando a sábia constatação do notório parlamentar, podemos asseverar sem sombra de dúvidas que mais alguns bichos estão inclusos na lista das espécies sujeitas à deglutição forçada por parte do eleitor. Poder-se-ia apropriadamente, acrescentar nesse rol animalesco alguns representantes da fauna nativa e exótica que certamente habitam o meio parlamentar.
Numa rápida passagem pela ictiologia vislumbram-se cardumes de traíras com seus dentes afiados a “devorar” seus próprios correligionários. E no meio delas os conhecidos “bagres ensaboados”, desses que não se consegue apanhar. As raposas são vistas com freqüência por aquelas paragens e como sua característica principal é a astúcia, existe a dificuldade natural em tentar alguma aproximação. Os paleontólogos apontam a existência de outros seres vivendo nesse ambiente hostil e que dominaram a terra há muito tempo: os dinossauros. É impressionante a longevidade dessas criaturas dantescas quando submetidos a algumas dezenas de anos consecutivos ocupando as cadeiras estofadas das Casas de leis. Dificilmente “largam o osso” e para isso se fazem acompanhar de acordos estapafúrdios, nada amparados em algum resquício de ética. Porém, uma coisa é certa: todos, indistintamente são classificados como onívoros, pois se alimentam de tudo o que for de seu alcance e interesse. De verbas de gabinete a emendas parlamentares, de salários aviltantes a ajudas de custo de toda espécie, de nomeações para cargos em todos os escalões a disputas internas pelo poder. Uma insanidade, sustentada e oficializada pelos mandatários-supremos da orgia oficial com os parcos recursos públicos, custeada pelo extorquido bolso dos indefesos contribuintes.
E nesse festival de excentricidades os eleitores ficam sem entender nada de nada. Já é sabido pela maioria que na política desse país tudo é possível, pois o político muda de lado como troca de roupa. Sequer por um momento avaliam o que o seu eleitorado realmente pensa dessa demonstração inequívoca de incoerência partidária. Decerto se consideram acima do bem e do mal. Ou pensam como aquele representante público que eleito em primeiro mandato, julgou equiparar-se ao Criador. Já no segundo pleito conquistado, tinha certeza de ser o próprio. Como uma considerável parcela do eleitorado brasileiro possui memória curta e ouvidos moucos (além de sofrer de acentuada miopia), a possibilidade de renovação dessa leva atual de parlamentares não é animadora. Com o agravante da ocorrência dos conhecidos “currais eleitorais” e “voto de cabresto” verificado por todo o país. A condenada prática do “toma lá, dá cá” transforma o eleitor em simples negociante de seu voto, sem direito à devolução ou reclamação posterior, nem garantias adicionais.
O período de campanha eleitoral é destinado à apresentação dos projetos de governo por parte dos postulantes a cargos eletivos. Compete ao eleitor participar do processo sucessório acompanhando de perto seu candidato, avocando propostas que contemplem as causas sociais e elegendo pessoas comprometidas com o interesse da coletividade. Com a participação efetiva do maior interessado, teremos a almejada democracia. Então participe, sugira, proponha, fiscalize, mostre sua força. O poder está em suas mãos. Assim, não será preciso engolir sapos ou quaisquer outros bichos esquisitos.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista