Ícone do site Angelo Rigon

“Estamos em greve”

De José Luiz Boromelo:
A cessação coletiva e voluntária do trabalho é uma forma controversa de se atingir objetivos específicos, muitas vezes sem avaliação criteriosa de suas conseqüências. Por aqui se faz greve para tudo, mas o campeão das reivindicações ainda é o reajuste salarial. Entidades representativas de classes trabalhistas oferecem apoio aos grevistas, com o objetivo de atrair a atenção da mídia e da população. Esse é o dispositivo mais utilizado pelo assalariado para requerer seus direitos no país.
Ocorre que por vezes a greve atinge setores estratégicos como transporte coletivo, assistência médica e hospitalar, segurança pública, telecomunicações, controle de tráfego aéreo, distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis entre outros. Muitos desses protestos são marcados pela insensatez, causando confusão e ocorrências mais graves com vítimas e danos materiais de grande monta. Parece que a disposição de insurgir-se contra alguma coisa que porventura venha a contrariar seus propósitos está entranhada na cultura do brasileiro. Em certos casos, tem-se a impressão a utilização da greve como meio de barganha é um ato de chantagem com fins exclusivamente interesseiros, apesar de prevista na Lei Nº 7.783, de 28 de junho 1989. Cabe ao Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de cada região analisar e julgar a legalidade ou não dos movimentos e dar o veredicto final. Que nem sempre contemplam os anseios pleiteados pelas classes.
Nessa onda de greves por todo o país fica evidente o despreparo oficial em se lidar com esse tipo de manifestação, no momento em que as autoridades constituídas simplesmente “cruzam os braços” e não tomam a iniciativa de estabelecer algum tipo de negociação. Existem classes de trabalhadores que são irredutíveis e não abrem mão de suas reivindicações. Para se chegar a um entendimento é necessário a mediação do órgão competente, que em certos casos determina uma eventual penalização das entidades que representam os grevistas, caso a paralisação persista. E quem paga essa “salgada” conta é o contribuinte, que fica à mercê dos morosos e tardios acordos entre as partes envolvidas.
Não é preciso pesquisar muito para identificar as greves em andamento no país. As atividades nas universidades federais estão paralisadas há quase três meses. Policiais federais de todo o país decretaram greve por tempo indeterminado. A emissão de passaportes e outros documentos estão prejudicados. Um número expressivo de processos de fiscalização do transporte internacional de animais, vegetais e seus subprodutos – como medicamentos e fertilizantes – ficaram parados no Porto de Santos no primeiro dia da greve dos fiscais federais agropecuários. O desembaraço das mercadorias nas fronteiras está comprometido por conta da greve dos fiscais aduaneiros, em que cargas perecíveis estão se deteriorando nos pátios dos portos secos. A mais recente adesão às greves que atormentam a vida dos brasileiros foi a dos policiais rodoviários federais, que iniciaram a conhecida “Operação padrão” complicando ainda mais o já tumultuado trânsito nas rodovias. Os prejuízos se multiplicam na proporção da insatisfação dos transportadores.
As greves disseminam-se de maneira espantosa. Em protesto a uma lei que regulamentou a jornada de trabalho de motoristas de cargas e passageiros, em vigor desde 16 de junho deste ano, motoristas obstruíram as principais rodovias do país, causando prejuízos incalculáveis. Motociclistas da capital paulista deixaram o trânsito ainda mais caótico quando resolveram interromper a circulação de veículos em “manifestação-relâmpago” contra medidas para a regulamentação da profissão. Em alguns estados do Nordeste a população sofre com as paralisações freqüentes dos motoristas do transporte coletivo.
O estado de greve geral atinge diretamente os setores produtivos da economia. O valor final das mercadorias é naturalmente reajustado como forma de compensar os transtornos de transporte e distribuição. Como a lei da oferta e da procura determina os preços, esperam-se altas generalizadas por aí. Esse é o chamado “Custo Brasil”. E quem quiser algum reajuste salarial é só se juntar aos demais levantando aquele conhecido cartaz: “Estamos em greve”.
___________
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.

Sair da versão mobile