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O céu não é o limite

De José Luiz Boromelo:
“Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade”. Estas foram as palavras do cosmonauta Neil Armstrong em 20 de julho de 1969, ao tocar o solo lunar pela primeira vez como comandante da missão Apolo 11. Mais de quarenta anos depois da histórica conquista, numa viagem intergaláctica de quase oito meses e 570 milhões de quilômetros percorridos o veículo não tripulado enviado pela Nasa (Agência espacial norte-americana) aterrissou intacto em Marte, enviando as primeiras imagens do planeta vermelho. Oficialmente a missão terá uma duração de dois anos, com expectativas de que o equipamento permaneça em atividade por pelo menos uma década. É um feito fantástico, à altura do seu investimento: mais de 2,5 bilhões de dólares e dez anos de testes. Um valor considerável, mesmo para a maior potência econômica do planeta.
Em que pese a curiosidade do ser humano em investigar os enigmas do infindável universo (até para comprovação se estamos realmente sós nesse mundo), é injustificável um dispêndio desse porte apenas para viabilização de pesquisas científicas. A versão oficial para a execução da missão é que muitos questionamentos da ciência poderiam ser esclarecidos, inclusive aqueles sobre nossas próprias origens. Sabe-se que existe água em Marte, o que indicaria a possibilidade de algum tipo de vida inteligente em corpos celestes que vagueiam pelo Cosmo. A descoberta de novas formas de vida no espaço sideral seria o ápice da ousadia humana, que carrega consigo o ímpeto natural de superar os próprios limites.
Enquanto os cientistas procuram desvendar os mistérios do infinito, as pessoas pelo mundo afora continuam a padecer com a indiferença dos detentores do poder. A fome no continente africano persiste há décadas, sem que as potências econômicas consigam sequer interromper a guerra civil entre as diferentes etnias. O questionamento é pertinente quando uma significativa parcela da população mundial ainda perece acometida por moléstias infecto-contagiosas recorrentes, por absoluta falta de investimentos em pesquisas científicas. As mesmas que o governo americano optou por direcionar para aquele projeto futurista e visionário despejando uma quantia astronômica de recursos, ignorando as necessidades reais e urgentes de seus semelhantes.
Não é compreensível que a busca pela cura de inúmeras enfermidades seja adiada ou seriamente prejudicada para satisfazer os interesses de poucos, com resultados questionáveis. Pelo que se sabe, há muito a fazer pela nossa espécie nesse planeta, o que naturalmente excluiria as vultosas somas que custeiam as viagens espaciais. O que importa se somos constituídos por matérias similares aquelas encontrados na Lua, em Marte ou qualquer outro planeta, se a vida por aqui não é tratada o devido respeito? Quais os benefícios efetivos para a humanidade se os cientistas descobrirem água na forma líquida naquele planeta inóspito, supostamente passível de abrigar alguma forma de vida como conhecemos? Por acaso estarão os cientistas buscando outras paragens para testarem seus inventos mirabolantes e provar que têm o poder de desbravar e destruir outros ambientes, assim como fazem com o nosso?
Seria bem mais proveitoso que os cérebros privilegiados da NASA queimassem seus neurônios para produzir veículos cada vez mais seguros, econômicos e menos poluentes, contribuindo para a preservação da qualidade do ar que respiramos. Ou que tivessem a iniciativa de aprimorar equipamentos de dessalinização da abundante água do mar para atender a demanda cada vez maior por água potável, essencial na vida de qualquer ser vivo. Ou ainda que gastassem melhor os seus bilhões desenvolvendo novas variedades e promovendo a melhoria genética dos grãos e sementes, livrando-os das inúmeras pragas que comprometem sobremaneira a produção de alimentos.
Porém, essas necessidades urgentes da humanidade parecem não fazer parte do rol de prioridades dos senhores intergalácticos. A eles só interessa a supremacia tecnológica, a qualquer custo. Mesmo que isso custe vidas humanas. A esses, o céu definitivamente não é, nem nunca será o limite.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista

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