Avenida politicamente incorreta

De José Luiz Boromelo:
Satisfazendo a curiosidade da maioria dos aficionados por suspense e emoção chegou ao final uma das mais badaladas novelas globais da atualidade. Num “cast” repleto de celebridades, o autor teve à sua disposição todos os ingredientes necessários para explorar ao máximo o tema proposto. Com um enredo bem elaborado, uma produção impecável e o altíssimo padrão de qualidade característico da emissora, o resultado não poderia ser outro. As expectativas para o último capítulo da trama tomou conta das rodas de conversas por todo o país. Até personalidades da política manifestaram interesse pelo desfecho do folhetim adequando sua agenda com a programação televisiva, mostrando que o brasileiro gosta mesmo desse tipo de programação. O retorno financeiro foi excepcional, com a adesão de mais de 500 patrocinadores por todo o país, elevando as cifras para algumas dezenas de milhões de reais.
Em que pese as mais nobres intenções do autor em retratar a realidade e as desigualdades sociais de um país, interagindo com os dramas domésticos e as intrigas a que o ser humano está sujeito, faz-se necessário algumas considerações. A começar pela total liberdade de pensamentos e atitudes descompromissadas impostas aos personagens. Os núcleos familiares formados com os desdobramentos dos acontecimentos criaram figuras distintas que ganharam vida própria, tornando-se independentes e protagonizando situações das mais inusitadas possíveis. Mesmo que objetivo principal do autor seja apenas e tão somente o entretenimento, alguns preceitos básicos foram ignorados. A exacerbada mostra de futilidades e artificialismo foi a marca registrada dessa produção milionária. Os incontáveis momentos de intimidade dos casais foram expostos continuamente pelas lentes indiscretas da ousadia, comprovando que o público tem atração pelo mundano. A instituição familiar foi bombardeada diariamente por conceitos equivocados, ocultos sob a névoa dos efeitos da iluminação especial.
Um renomado comentarista desfiou pérolas sobre essa produção bem a seu estilo, num discurso de exaltação a emissora a qual pertence. A ironia utilizada para classificar favoravelmente a novela não combina com sua altivez quando o assunto é outro, bem mais sério e relevante para o país. Ouvir desse profissional que não sabe o que vai fazer nas noites sem os capítulos da trama que tinha o poder de “matar nossa fome de verdades” é doído. Gaba-se ele em seu comentário que os dramas da chamada “classe C” foram mostrados sem disfarces. Esquece-se o notório em questão que não podemos analisar as peculiaridades observadas numa região específica e estender esse comportamento para o restante do país. Essa “galeria riquíssima de personagens complexos” dos bairros Leblon e Ipanema não representa a totalidade absoluta dos brasileiros. Esses “não são tipos simplistas e esquemáticos”, mas criações fantasiosas de um autor que mostrou enorme potencial ao amealhar mais de 80 milhões de seguidores, ávidos por acompanhar seus inebriantes devaneios. E o país não “se vê no espelho” nem “o brasileiro enriqueceu muito nesses meses”. Pelo contrário, a “TV com reflexão crítica sobre o país” continua alienando seus espectadores desde há muito, com injeção maciça de recursos e marketing agressivo.
Enfim, nos intermináveis capítulos da história regada a cifras astronômicas prevaleceu o drama, a chanchada e a tragédia com um saldo nada positivo para a manutenção dos laços familiares. O interesse financeiro que prevalece sobre o amor e a fidelidade no momento em que um homem relaciona-se simultaneamente com três mulheres, a infidelidade conjugal freqüente, as disputas no seio familiar e as intrigas generalizadas tomaram conta dos diálogos. Sob o pretexto de mostrar as desigualdades sociais, o autor extrapolou os limites do bom senso comum. E a realidade vivida num subúrbio certamente não é a mesma em outras regiões, por suas diferenças culturais e geográficas. Fica então a certeza de que estamos mesmo mudando nossos conceitos sobre os valores de uma sociedade. Porque como disse o “entendido” comentarista, “essa novela é um fato digno de estudos antropológicos e estéticos”. Durma-se com um barulho desses!
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José Luiz Boromelo, escritor e cronista.