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Vítimas da irresponsabilidade

De José Luiz Bloromelo:
A população de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, está em estado de choque. Um incêndio ocorrido numa casa de shows matou mais de 230 pessoas, em sua imensa maioria jovens universitários. Algumas dezenas estão em estado grave e outras tantas poderão apresentar sintomas de intoxicação severa no decorrer dos dias. O incidente teria sido provocado acidentalmente pelo uso inadequado de um artefato similar a fogo de artifício, supostamente utilizado por um integrante do grupo musical que animava o evento. A tragédia repercutiu em todos os continentes e até a presidenta foi pessoalmente levar sua solidariedade aos familiares das vítimas. Diante da situação, faz-se necessário analisar alguns aspectos relevantes que contribuíram para que o evento atingisse tais dimensões. Dentre eles destacam-se a lotação muito acima da permitida, a falta ou deficiência nos equipamentos de segurança (extintores de incêndio, hidrantes, sistema de detecção de fumaça, iluminação de emergência) e outros. Mas duas particularidades podem ter se transformado no fator determinante para amplificar a magnitude da tragédia, apontada de imediato pela perícia técnica: a composição altamente inflamável do revestimento acústico do teto e a inexistência obrigatória de saídas de emergência. Muitos corpos foram encontrados nos banheiros, numa derradeira e equivocada tentativa para tentar escapar do inferno de fogo e fumaça.
Como sempre acontece em fatos de grande repercussão, logo aparecem os apresentadores de programas sensacionalistas que deixam a ética de lado e requisitam certos “especialistas” para debaterem o ocorrido com toda a “experiência” que lhes são peculiares. Assim foi no ataque dos fundamentalistas islâmicos à maior potência econômica do planeta, na explosão e afundamento da plataforma brasileira de petróleo, no choque do avião com o prédio da empresa aérea, no encalhe do transatlântico na costa italiana e em mais alguns acontecimentos pelo mundo afora. Interessante como existem pessoas com tamanha qualificação profissional a ponto de abrangerem uma vasta gama de assuntos, em que os detalhes são esmiuçados com toda a “propriedade”. O que buscam evidentemente é a atenção (mesmo que momentânea) dos holofotes. Nada que um competente repórter não possa cobrir com eficiência.
Por todo o país os estabelecimentos comerciais onde se concentram um grande número de pessoas passaram a ter fiscalização rigorosa por parte dos órgãos responsáveis. Fiscais municipais, integrantes do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e outros profissionais tentam fazer cumprir a legislação (com todas as suas exigências legais), com o intuito de evitar acidentes como o ocorrido no estado gaúcho. É sabido que muitas vezes as empresas que exploram esse segmento não atendem a todos os requisitos exigidos, por deficiência na fiscalização ou falta de investimentos em segurança. É necessário que a legislação específica seja revista com urgência, e que cada município eleja suas prioridades de acordo com as necessidades observadas em sua área de abrangência.
A julgar pela mobilização de altas autoridades empenhadas no assunto, tudo indica que as coisas poderão mudar, visando a segurança do usuário de estabelecimentos comerciais noturnos. Mas como conhecemos sobejamente a índole de nosso povo, é preciso (além da fiscalização constante) uma boa dose de ética no trato com as questões que incluem o bem estar da população. E o conhecido “jeitinho brasileiro” deve ser definitivamente banido de nossa sociedade. Não podemos aceitar nem compactuar com a ilegalidade. Quem não tem competência que não se estabeleça. Ou se enquadra na legislação ou encerra suas atividades. Dessa forma o cidadão será tratado com o devido respeito. E que nunca mais tenhamos que contar às centenas, as vítimas da irresponsabilidade.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.

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