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Café com leite

De José Luiz Boromelo:
A eleição dos novos presidentes do Senado e da Câmara Federal trouxe de volta a sensação de impunidade diante das “costuras” políticas, sob a supervisão direta do Palácio do Planalto. Ambos são considerados “ficha suja”. Renan Calheiros é investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal devido a um suposto uso de notas fiscais frias. O deputado Henrique Eduardo Alves que foi eleito novo presidente da Câmara, responde a processos na Justiça por improbidade administrativa e enriquecimento ilícito.
A julgar pelas demonstrações de apoio aos novos escolhidos imagina-se o que se esconde por trás dessa “força-tarefa” promovida pelos atuais detentores do poder.O fato poderia ser comparado ao movimento conhecido como “política do café-com-leite”, um arranjo político que envolveu as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais e o governo central. O objetivo era controlar o processo sucessório para que somente políticos desses dois estados fossem eleitos à presidência, de modo alternado. Tal acordo seria numa referência a economia de São Paulo e Minas Gerais, grandes produtores à época, respectivamente, de café e leite.
Curiosidades à parte, fica evidente que a alternância dos partidos na presidência das Casas atende a interesses de um seleto grupo de parlamentares, enquanto a oposição inexplicavelmente agoniza. Onde estariam os senadores e os deputados que se notabilizaram por ocupar a tribuna proferindo discursos inflamados, na defesa aos interesses do cidadão brasileiro? Por que agora se omitem, mesmo lutando contra a onda avassaladora de corporativismo que assola aquelas casas de leis?
Ou visavam somente a promoção pessoal ou as expressões de indignação perante o tema que defendiam faziam parte de um grande circo. Com a presença dos protagonistas, dos coadjuvantes e do distinto público. E o eleitor coagido a utilizar aquele acessório de cor avermelhada, típico dos que têm a incumbência de arrancar risos da platéia. A oposição foi “engolida” pelo sistema, que carrega uma dose de virulência proporcional à popularidade da aprendiza de Robin Hood tupiniquim.
A história aponta os erros de um passado recente, em que uma disputa interna pelo poder imortalizou o anacrônico Severino, recolhido à sua própria insignificância. Pode-se então esperar que o cardápio no Congresso Nacional ganhe outros ingredientes, além do tradicional café com leite e a conhecida marmelada, ou a providencial pizza brasiliense. Salvem as almas!
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.

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