Hiprocrisia presidencial

De José Luiz Boromelo:
Em recente compromisso na capital italiana a presidenta fez-se acompanhar de numerosa comitiva, requerendo uma estrutura considerável. Foi aconselhada por um ministro (ex-seminarista) a prestigiar a posse do Papa (até por conta de suas conturbadas relações com a Igreja Católica). É sabido que o Brasil mantém bom relacionamento com o Vaticano há muito tempo, portanto (teoricamente) não seria imprescindível que a chefe da nação prestigiasse o evento. Não há justificativas para transformar a viagem num périplo dessa envergadura, em que a comitiva presidencial constituiu-se por algumas dezenas de integrantes. Para rematar com chave de ouro o “tour da fé”, decidiu-se não ocupar as suntuosas e aconchegantes dependências da embaixada brasileira em Roma. O jeito foi acomodar o grupo em 52 quartos do Westin Excelsior, um dos melhores hotéis da Europa cujas despesas oneraram os cofres públicos (sem constrangimento algum) em “modestos” R$ 324 mil, incluindo o aluguel de 17 automóveis com motoristas. A justificativa para tamanha farra às expensas públicas viria do chanceler Antonio Patriota (sem trocadilhos), que considerou a incapacidade da embaixada em abrigar a presidenta e seu séquito “por encontrar-se em reformas”.
Alguns parlamentares da oposição garantem cobrar do Palácio do Planalto maiores informações sobre o custo total da viagem da presidenta a Roma. Mesmo que isso realmente aconteça, as explicações da Presidência da República certamente serão “robustas” o suficiente para corroborar os indecorosos e exorbitantes números da planilha de gastos oficial. Os altíssimos índices de aprovação do governo atual encarregar-se-ão de apaziguar naturalmente os mais exaltados mesmo porque até 2014, muita água vai passar por debaixo da ponte e as costuras políticas se farão necessárias para as coligações entre os partidos de sustentação da base governista.
De antemão, o cidadão brasileiro pode tirar suas próprias conclusões sobre a controversa viagem presidencial. A história mostra que nossos governantes não se preocupam com os gastos oficiais, pois tomam para si a prerrogativa (e a autonomia que o cargo oferece) de utilizarem os recursos de forma escancaradamente dispensável, prática recorrente inclusive por gestores anteriores. Seria realmente relevante a viagem da presidenta ao Vaticano se o país não convivesse diariamente com os problemas que afligem sua população. Se o ensino no país estivesse nos patamares mais elevados do planeta, com os educadores percebendo um salário à altura de sua enorme responsabilidade em formar os profissionais do futuro. Se a assistência à saúde correspondesse com as necessidades mais elementares, garantindo um mínimo de qualidade no atendimento ao segurado. Se a violência não fizesse parte da rotina diária do brasileiro, que continua sendo vítima de todo tipo de ilícito sem que as autoridades responsáveis consigam sequer reduzir os índices alarmantes da criminalidade.
Seria totalmente recomendável que a presidenta se fizesse presente em eventos pelo mundo afora, com o intuito de representar positivamente essa nação progressista e acolhedora se não houvesse intermináveis problemas com infra-estrutura, rigorosamente em todos os setores. Se nossas ruas, avenidas e rodovias estivessem em condições pelo menos razoáveis, proporcionando o ir e vir seguro do cidadão, evitando a perda desnecessária de vidas humanas e recursos materiais por conta do trânsito caótico. Se nossos portos fossem eficientes o suficiente para evitar o acúmulo de caminhões em filas quilométricas à espera pelo descarregamento (uma forma dispendiosa de escoar a safra recorde de grãos). Se as empresas não convivessem com os constantes “apagões” no sistema elétrico, que causam prejuízos imensos ao desenvolvimento do país.
Definitivamente, a presidenta mostrou uma incoerência imperdoável diante das atitudes simples e despojadas do novo Sumo Pontífice. Faltou-lhe humildade suficiente para cumprir com suas atribuições respeitando o contribuinte brasileiro. O que deixa a certeza de que outras viagens virão. Infelizmente.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.