O que é isso, minha gente?

De José Luiz Boromelo:
Houve uma época em que as pessoas carregavam naturalmente consigo alguns sentimentos em vias de extinção hoje em dia: a educação e o respeito. Que não se restringiam a obrigatórios “bom dia, por favor, obrigado”. As instituições, os poderes constituídos e as autoridades eram tratados com extrema deferência, sinal de elevada consciência cívica e salutar apreço aos valores morais de uma sociedade. Os tempos são outros, os conceitos seculares foram gradativamente substituídos e os resultados não tardaram em aparecer. Tornou-se fato comum no Brasil as pessoas tomarem, em momentos distintos, algumas atitudes reprováveis. Em compromissos oficiais recentes autoridades foram vaiadas sem constrangimento algum, mostrando muito mais que sintomas de rebeldia juvenil. Os apupos demonstram um elevado grau de descontentamento ou inconformismo com a situação atual do país, enquanto expõem nossa sofrível formação cultural, além de uma profunda carência de valores morais, (imprescindíveis no ser humano) requisitos básicos para o convívio harmônico em coletividade.
Os últimos acontecimentos em que a presidenta foi alvo de vaias estrondosas evidenciam uma desalentadora e inexplicável tendência anarquista, se não algo mais grave. Na abertura da Copa das Confederações, o inesperado uníssono depreciativo ultrapassou os limites do bom senso e ignorou o pedido por respeito do dirigente maior da entidade organizadora da competição esportiva. Restou à governante limitar-se a proferir meia dúzia de palavras, encerrando de forma melancólica sua participação no evento. Situação similar ocorreu na recente 16ª Convenção dos Prefeitos, com a diferença de que o ato insensato não veio dos estádios impregnados pelo clima festivo e naturalmente descontraído. Os gestores municipais extrapolaram e muito em suas demonstrações de desagravo perante a chefe do executivo federal. Em que pese a urgência de medidas efetivas para que os municípios possam honrar satisfatoriamente os compromissos assumidos, nada justifica a atitude censurável, incompatível com o cargo ocupado. É de se esperar por parte dos prefeitos um mínimo de compostura, mesmo diante das dificuldades atuais.
O clima de turbulências que assola o país teve sua origem numa simples manifestação contra os valores das tarifas do transporte coletivo na capital paulista. A partir de então, segmentos da sociedade, estimulados pela repercussão do ato organizaram inúmeros protestos, transferindo para essas manifestações a insatisfação contra tudo e contra todos os que representam o controle do Estado na vida do cidadão. Tal qual a rebeldes sem causa, promoveram cenas de violência gratuitas, causando prejuízos incalculáveis para o país e em casos extremos, a perda de vidas humanas. A nação vive dias de um ineditismo ímpar, superando de longe (em virulência) o período sombrio de opressão do regime militar. A modernidade virtual que une os manifestantes pacíficos instiga os baderneiros de plantão, que só precisam de uma oportunidade para mostrar a que vieram. Nota-se claramente a índole nefasta de uma pequena parcela da população, com a qual diariamente convivemos.
A falta de respeito é facilmente visualizada no cotidiano das pessoas. Os freqüentes casos de violência no trânsito e os desentendimentos por motivos banais são muitas vezes levados ao extremo por seus protagonistas. No ambiente escolar as agressões a educadores e brigas entre alunos ocorrem por todo o país, com a divulgação dos fatos pelas redes sociais. Esse é o caráter permissivo dos tempos atuais. Tudo pode e tudo é permitido, sob a justificativa de que os direitos individuais devem prevalecer. A moda é contrariar os preceitos pré-estabelecidos. Não se discute com seriedade os problemas que afligem nossa população. Só existe a preocupação com o superficialismo, a materialidade barata, os interesses escusos. Os homens públicos, que por sua condição natural deveriam resguardar os interesses da sociedade, acabam direcionando os esforços para conveniências próprias. Se as vaias dos torcedores e as dos gestores públicos buscam expressar suposta democracia, urge rever certos conceitos equivocados, restando um questionamento: para que tudo isso, minha gente?
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(*)José Luiz Boromelo, escritor e cronista
(**) Ilustração Inti
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