De Alex Costa:
Todos ainda se recordam das grandes manifestações populares que ocorreram este ano no mês de junho, espero que sim. Surgidas de protestos contra aumentos de tarifas do transporte público nas grandes capitais do país, elas rapidamente reuniram várias outras questões que desde sempre aborrecem os brasileiros e que provocam atrasos sociais, econômicos e culturais. Porém, quero discutir aqui outro assunto: a falsa ideia de que tais manifestações eram um sintoma de que os brasileiros, comparados com um gigante, haviam finalmente, acordado para lutar contra os problemas.
Na verdade, grande parte dos brasileiros sempre esteve acordada, e sempre se manifestou quando se sentiu prejudicada. A impressão de que o brasileiro é um povo que não luta foi construída em favor de uma história na qual somente os grandes políticos tinham lugar de destaque e faziam o papel de benfeitores. Dom Pedro I proclamou a independência, Duque Caxias venceu a Guerra do Paraguai, Marechal Deodoro proclamou a República. Todos grandes nomes que protagonizaram triunfos sobre inimigos estrangeiros ou contra uma ordem política ultrapassada. Dentre esses grandes personagens da pátria, que são celebrados em datas comemorativas, apenas Tiradentes era filho das camadas populares, mesmo assim só ganhou destaque entre os membros dessa elite histórica por ter sido vítima da injustiça colonial portuguesa.
Resumindo, a memória e a história nacional sempre deram destaque somente aos eventos que não criticavam os problemas internos de nossa sociedade. Assim, não incentivavam aqueles que realmente tiveram perspectivas de melhorar a situação do povo e nos quais as camadas populares eram protagonistas. Como o espaço aqui é curto para dar detalhes de cada um dos muitos movimentos populares que já ocorreram no Brasil, vou apenas citar o nomes de alguns. Conjuração Baiana, Guerra Guaranítica, Confederação do Equador, Cabanagem, Balaiada, Sabinada, Revolta dos Malês, Revolução Praieira, Greve dos Jangadeiros, Abolicionismo, Guerra de Canudos, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Tenentismo, Ligas Camponesas, Guerra do Contestado, Levante dos Posseiros, Revolta de Porecatu, essas três últimas ocorridas, inclusive, no nosso território paranaense. Enfim, são os que me vem à memória enquanto escrevo, mas existem muitos além desses. Se o leitor tiver interesse, encontrará mais informações na internet e verá que os conflitos sociais sempre estiveram presentes na história do país mesmo não fazendo parte da memória da maioria dos brasileiros.
Portanto, ideia de que em junho de 2013 um suposto gigante acordou para lutar por um Brasil melhor trata-se mais uma vez de uma estratégia para que todos acreditem que os brasileiros sempre foram apáticos preguiçosos nunca exigiram de fato seus direitos. Agora que as manifestações se acalmaram e o suposto gigante, infelizmente, dormiu outra vez as questões que ficam são as seguintes: Quem é que se beneficia com seu sono? Contra quem e pelo que os movimentos atuais e os do passado lutaram? Obter resposta para estas perguntas é tão importante quanto marchar em protesto nas ruas.
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(*) Alex Aparecido da Costa é mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História da UEM pesqueisador do Leam – Laboratório de Estudos Antigos e Medievais
(**) Ilustração Inti