De José Luiz Boromelo:
Opinião semelhante acompanha o pioneiro marialvense Ângelo Martins Lopes, que do alto de sua experiência acumulada ao longo de nove décadas de vida, das quais por sessenta e sete anos devidamente habilitado, ressalta que os condutores da atualidade carecem de mais atenção e paciência no trânsito. O senhor de gestos comedidos e fala pausada que já exerceu as profissões de motorista de caminhão, taxista e funcionário público orgulha-se de nunca ter sido “contemplado” sequer com uma única autuação na carteira de habilitação. E demonstra ainda muita disposição e agilidade ao enfrentar sem medo o caótico trânsito da Cidade Canção. Seu lema é “Respeitar para ser respeitado”, síntese de um comportamento que todos aqueles que se dispõem a utilizar a via pública haveriam de carregar consigo.
Infelizmente não é o que acontece. Os casos de imprudência se proliferam a olhos vistos. Os sistemas de monitoramento por câmeras instaladas nos imóveis se encarregam de mostrar a que ponto chega a ousadia de determinados condutores. Geralmente com resultados trágicos, deixando um rastro de prejuízos materiais, sofrimento por seqüelas irreversíveis e vidas ceifadas prematuramente. Mas onde está o erro? Quem são os maiores responsáveis por essa onda interminável de ocorrências graves? Qual a responsabilidade de cada um diante de um trânsito que se mostra cada vez mais complexo e sem perspectivas de melhoria significativa num futuro próximo? Quais as alternativas viáveis para se mudar satisfatoriamente a qualidade dos deslocamentos no momento em que o país bate recordes sucessivos na comercialização de veículos? Qual a influência que uma legislação frágil e conivente exerce no comportamento dos condutores infratores?
São questionamentos pertinentes que merecem a devida reflexão, uma vez que as iniciativas oficiais para minimizar os principais problemas do trânsito se mostram insuficientes diante do quadro atual. Não se pode creditar a responsabilidade pelas tragédias sem fim a um único fator determinante. Nossas vias públicas não oferecem as condições ideais, nem o condutor se mostra totalmente preparado para assumir a direção de um veículo. Um país que tem a tendência de converter uma grande parcela dos crimes de trânsito em penas de prestação de serviços comunitários e doação de cestas básicas certamente terá sérias dificuldades em estabelecer o cumprimento integral de suas regras. Espera-se, portanto uma posição inflexível de nossos julgadores, como elemento de dissuasão de comportamentos equivocados no trânsito. A sociedade exige providências imediatas.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.