O preço da democracia
De José Luiz Boromelo:
O Brasil se mostra cada vez mais o país dos modismos passageiros. É só alguém surgir com alguma mania qualquer, postar na Internet e pronto: o vídeo acaba “bombando”, com centenas de milhares de acessos. Nossos internautas não são nada exigentes, conferindo compartilhamentos e outras baboseiras a coisas que nada têm a ver com a índole desse povo naturalmente ordeiro e trabalhador. Felizmente aquilo que não carrega conteúdo logo cai no esquecimento e por aqui não é diferente. Quem não se lembra das ridículas “pulseiras coloridas do sexo” que deixaram muitos pais de adolescentes de cabelos em pé, ou da insípida “dança da raposa” ou ainda do excêntrico saltitante Psy? Num passe de mágica todos se foram como chegaram e não deixaram saudades. A moda do momento agora é o “rolezinho”, uma nova modalidade de “diversão” praticada por jovens e adolescentes.Com locais e horários previamente combinados pelas redes sociais, os grupos se reúnem às centenas e provocam confusão por onde passam. Os shoppings freqüentados por pessoas da classe alta são os alvos preferidos, prejudicando o funcionamento dos estabelecimentos com o fechamento de lojas. Em alguns casos foram verificados saques e depredações, deixando os comerciantes em estado de alerta para evitar novos prejuízos.
Como sempre acontece em casos que repercutem na mídia, logo aparecem os especialistas para comentar sobre o assunto polêmico do momento. Nessa situação específica a maioria dos profissionais defende a livre manifestação dos jovens em qualquer espaço de convivência (pública ou privada), independente das conseqüências. Chegam inclusive a sugerir que o fechamento preventivo dos locais é uma forma de discriminação especialmente dos jovens da periferia, tradicionalmente caracterizados pelo modo de vestir e falar. Enfatizam ainda que o fato poderia ser classificado como segregação social e reafirmam a manutenção dos direitos do cidadão, entre eles os da livre expressão e o de ir e vir. Não obstante, por quais motivos os jovens haveriam de escolher determinado horário para freqüentar os shoppings? E por que a necessidade de se juntar um número expressivo de integrantes num só local? Quais os verdadeiros objetivos que se ocultariam por trás desse comportamento (muitas vezes) agressivo e com alto poder de intimidação? Por experiências anteriores, é sabido que o agrupamento de pessoas tende a conferir supostos poderes que individualmente não são colocados em prática. Mesmo que as intenções iniciais dos integrantes sejam apenas buscar a diversão (com a justificativa de que não se oferece essa opção na periferia), as ações de vandalismo e violência que acompanham os movimentos impõem prejuízos aos lojistas. Se por um lado os jovens se declaram detentores do direito de freqüentar locais teoricamente franqueados a todo e qualquer cidadão (independente de classe social ou comportamento ali observado), por outro os comerciantes (que pagam seus tributos e geram empregos) têm a prerrogativa de trabalhar com a tranqüilidade necessária e sem qualquer tipo de ameaça aos seus investimentos.
A sociedade não pode ignorar essas manifestações, nem tentar minimizar suas conseqüências com justificativas de acatamento aos direitos individuais previstos na Carta Magna. O temor dos comerciantes é compreensível porquanto os “rolezinhos” podem descambar para os “arrastões” verificados na orla das capitais. Porém, o livre acesso deve ser facultado a todo cidadão, sem qualquer tipo de distinção. Espera-se que seja apenas mais um modismo passageiro, como aqueles já relegados ao esquecimento. A convivência sempre gera responsabilidades, distribuídas equitativamente entre as partes. Se há desequilíbrio, então que seja corrigido a tempo. Porque cedo ou tarde, a democracia há de cobrar seu preço.
___________
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.