De José Luiz Boromelo:
A primeira impressão desse comportamento aparentemente liberal por parte dos telespectadores é a de que caminhamos a passos rápidos para novos tempos. A imagem de pessoas com mais idade envolvidas no clima serviu como pano de fundo para a composição deliberada de uma nova mentalidade que assola nossa sociedade. É de se questionar os motivos pelos quais aqueles valores estratificados e incorporados no caráter das pessoas deixaram de existir ou foram repentinamente ignorados. Certamente muitos dos respeitáveis senhores e senhoras da terceira idade que se juntaram aos mais jovens para conferir o final da novela viveram na época em que se privilegiava o respeito e se procurava preservar os pilares da instituição familiar. Que força invisível induz os mais experientes a aceitarem passivamente a ousadia dos autores e diretores desse tipo de entretenimento? Tudo muito natural para os jovens da atualidade, numa época de liberalismos em que se exortam continuamente os direitos individuais (entre eles os da liberdade de expressão), pleiteados sob a égide da Constituição Federal.
Os atores protagonistas comentaram o momento polêmico. Entre outras declarações sobressaiu-se “… é uma cena que, se Deus quiser, vai reverberar na sociedade e em outros trabalhos. É um pequeno passo para a dramaturgia, mas um grande passo na sociedade”. Um plágio simplista, diante da repercussão do fato. Outros artistas afirmam que se criou um marco na televisão brasileira. Essa visão contribui ainda mais para reforçar as tendências progressistas, típicas daqueles envolvidos com a profissão. Esquecem-se de que as pessoas têm opiniões e conceitos distintos. E que apesar das demonstrações de “avanços” na conquista dos “plenos direitos” das classes consideradas discriminadas pela sociedade, existe um limite tênue que distingue a ousadia do bom senso comum.
Não é de se estranhar que coisas desse tipo sejam cada vez mais freqüentes num país onde proliferam programas de qualidade questionável. Enquanto rapazes desinibidos confinados com siliconadas despudoradas atraírem público, continuaremos a idolatrar tudo o que vier pela frente. O beijo foi apenas um pretexto, uma apelação fútil de caso pensado. Muito antes de representar qualquer sentimento de liberdade, o fato comprova que estamos mesmo na época das novidades. O brilho dos holofotes se encarrega de criar o lirismo indispensável para que tudo seja perfeito nas telas, porém bem diferente da realidade do dia a dia. Mas afinal, foi só um beijo inocente. O primeiro dos muitos que certamente virão por aí.
________
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.