O país do faz de conta
De José Luiz Boromelo:
Era uma vez um País que tinha uma gente de costumes esquisitos. Apesar de sentirem orgulho das cores de sua bandeira, seus habitantes mal sabiam cantar o hino nacional e quando o faziam mostravam uma displicência sem tamanho. Nesse País de dimensões continentais os governantes carregavam consigo a péssima mania de ignorar os compromissos assumidos e só apareciam durante a campanha eleitoral. Ainda assim, mantinham-se no poder sucessivamente, dando a impressão de que a população dessa descontraída nação não tinha memória ou não se preocupava em ingerir Fosfosol regularmente. Aliás, é notório que as carências não se restringiam a deficiências vitamínicas. No País do faz de conta as coisas nunca são o que parecem. Como a famigerada contribuição sobre movimentações financeiras, inicialmente destinada a socorrer a área da saúde, mas que acabou desvirtuada e os recursos utilizados em outras finalidades mais “relevantes”. Conta-se que a situação piorou muito e a superlotação dos hospitais públicos exibe o descaso do Estado para com os direitos elementares do cidadão.
Quase ninguém desse País emergente questionava as decisões do governo (nem a oposição, que por dever de ofício haveria de fazê-lo) e a liberação dos recursos seguiam sem quaisquer critérios técnicos. Por conta dessa omissão, obras faraônicas consumiam vorazmente os minguados recursos, que estufavam cada vez mais os bolsos dos empreiteiros. Sem falar nos casos de superfaturamento, uma praga de difícil erradicação, sempre presente nesse meio. Enquanto isso as rodovias, portos e importantes obras de infra-estrutura foram deixados de lado. Com seu admirável poder de convencimento, os nobres representantes do povo conseguiam assegurar a inclusão de suas emendas parlamentares no orçamento da União, uma maneira de agradar seu reduto eleitoral e de quebra garantir a reeleição. Dessa forma, faziam de conta que realmente se preocupavam com o povo, que por sua vez fazia de conta que acreditava nisso. Naquela badalada república federativa as pessoas tinham por hábito externar resquícios de hipocrisia, como num caso de uma camiseta amarela que supostamente (diziam alguns mais pudicos) sua estampa retratava conotação sexual. Então, (para não perder a piada) a família toda se reunia para assistir a uma programação televisiva das mais qualificadas, uma mostra inquestionável de preocupação com a formação moral de nossa juventude.
No País do faz de conta tudo é muito relativo. Os condenados em processos judiciais sentem o peso da mão da Justiça, de forma a coibir os ilícitos de todo tipo. Porém alguns privilegiados (com defensores contratados a peso de ouro) conseguem procrastinar decisões por longo tempo e até mesmo mudar sentenças em instâncias superiores. Vê-se, portanto que o equilíbrio da balança (leia-se isonomia) não acompanha a todos indistintamente, uma vez que teoricamente uns possuem mais direitos que outros. Os índices de violência por lá são alarmantes. As forças de repressão não conseguem reduzir a criminalidade, o sistema carcerário é obsoleto, transformando estabelecimentos penais em verdadeiras masmorras medievais. Naquele País de gente ordeira e trabalhadora os motoristas são reconhecidamente imprudentes, pois cometem tantas infrações de trânsito quanto possíveis e imagináveis. Apesar das campanhas educativas, a guerra motorizada deixa todo ano um saldo de milhares de mortos, feridos e incapacitados.
Agora se comenta que a população do País do faz de conta tem opiniões bastante divergentes, pois consideram que os bilhões de reais consumidos na organização da Copa do Mundo de futebol haverão de fazer falta. Ficará a certeza de que as coisas serão muito piores que antes, com ou sem o título de hexacampeão. Mas nada que sua gente não se esqueça rapidamente, sintomas da memória não confiável. Afinal, naquele País que aprecia sobejamente o carnaval e o futebol, 2014 será ano eleitoral. Então, melhor fazer de conta que está tudo certo por lá. E qualquer semelhança com nosso maltratado Brasil não teria sido mera coincidência.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.