Pelos buracos da peneira

De José Luiz Boromelo:
copaAntigamente era costume utilizar a expressão “tapar o sol com peneira” quando se queria ocultar algo evidente e notório ou nas ocasiões em que as pessoas não tinham o controle da situação. Expressão atualmente em desuso, eis que o conhecido ditado popular cai como uma luva nos acontecimentos que deixaram personalidades públicas em maus lençóis, com transmissão ao vivo em rede nacional. É sabido que o brasileiro não tem o hábito de guardar para si suas emoções, preferindo externá-las especialmente nos locais de grande concentração de público. Isso inclui evidentemente todo tipo de manifestação sonora em que se destaca a conhecida e mundialmente utilizada vaia. Os apupos têm alto poder contagiante e o contemplado com essa inesquecível “honraria” passa por momentos constrangedores, totalmente submisso e impotente diante do coro ensurdecedor a que é momentaneamente submetido. Alguns mais experientes conseguem superar e até reverter a situação, porém nem sempre deixam seu recado como gostariam ante a massa contaminada por momentos de pura euforia.
O caso recente que repercutiu pelo mundo todo foram as vaias direcionadas à presidenta na abertura da Copa das Confederações realizada no País em 2013. Até o dirigente da maior entidade do futebol mundial veio em socorro da anfitriã solicitando o devido respeito, porém o público preferiu mostrar (sem pudor algum) seu descontentamento ignorando convidados ilustres. Apesar do vexame, o exercício da plena democracia garante a todos indistintamente o direito da livre expressão, o que realmente ocorreu naquela ocasião. Esse fato foi determinante na elaboração das estratégias para a Copa do Mundo que se aproxima. Decidiu-se de comum acordo deixar de lado os discursos na abertura do evento, uma mostra de fragilidade administrativa diante de uma situação adversa. O cidadão brasileiro anda incrédulo e contrariado com os valores exorbitantes despejados (a toque de caixa) na conclusão das obras do gigantesco evento e para que tudo esteja pronto na data prevista, imagina-se que o montante final deverá ultrapassar todas as previsões possíveis. Uma sangria sem precedentes nos cofres públicos.
Ainda pesa na balança as declarações polêmicas de alguns integrantes do Conselho Administrador do Comitê Local da Copa. Entre outras preciosidades destacam-se afirmações dignas de aplausos. A frase “Não se faz Copa com hospital” do ex-jogador não surpreendeu, pois o fenomenal carrega consigo a certeza de que jamais será atendido em qualquer hospital público desse País, mantendo-se bem distante das carências que afligem seus semelhantes. Já o Atleta do Século demonstrou sabedoria de causar inveja a qualquer monge tibetano quando resolveu vaticinar sua teoria assegurando que “… o dinheiro roubado na construção dos estádios será recuperado com o turismo”. Por essas e por outras, fica evidente que aquele ditado popular está presente em nosso meio.
As preocupações com manifestações violentas durante a competição são pertinentes. Tem-se a impressão de que o País embarcou numa canoa furada. O capitão responsável pela empreitada abandonou o navio e escafedeu-se. Resta agora à timoneira-mor e sua tripulação navegar por águas turbulentas sem fazer água. Uma tarefa deveras complicada, nessa altura do campeonato. Melhor encarar a realidade, seja ela acompanhada de vaias, aplausos ou o que vier pela frente. Mesmo porque não existe peneira nesse mundo capaz de tapar o rombo bilionário e imoral impingido ao cidadão brasileiro. O legado da Copa será mesmo pago pelo contribuinte. Essa é, infelizmente, a única certeza.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista