O leite nosso de todo dia

De José Luiz Boromelo:
LeiteUm empresário foi preso no Rio Grande do Sul acusado de crimes contra a saúde pública. O flagrante num posto de resfriamento confirmou a adição de produtos químicos e água no leite para simular suas propriedades naturais, com o intuito de aumentar significativamente seu volume e auferir lucros com a prática altamente danosa ao organismo humano. O Ministério Público, agentes do Ministério da Agricultura e a polícia gaúcha tentam rastrear o destino final e a real quantidade de leite enviada para diferentes laticínios, mas já se sabe que centenas de milhares de litros foram comercializadas nos estados do Paraná e São Paulo, com marcas distintas. Os revendedores do produto foram orientados a retirar o lote contaminado das prateleiras, mas os danos provocados à saúde dificilmente serão constatados de imediato. Entre os produtos utilizados para a consecução do ilícito está a uréia, que em contato com o leite libera o formol, substância altamente cancerígena a longo prazo.
O brasileiro sofre há muito com a falta de escrúpulos e a desonestidade nos segmentos do comércio e da indústria, em que a busca pelo lucro fácil supera todos os limites aceitáveis. Esse acontecimento recente foi apenas mais um entre os incontáveis casos de desrespeito aos direitos elementares do consumidor. Certamente a adulteração do leite remonta a décadas, mas só agora veio a público. Assim foi no caso do frango congelado, que carregava consigo uma quantidade excessiva de água, ludibriando a boa fé do consumidor. Alguns produtos conseguem atrair o eventual interessado utilizando embalagens visualmente criativas como a bebida láctea, genérico do iogurte que diminuiu de volume sem alterar significativamente o sabor e que muitos desatentos confundem com o original. Há casos graves como a larva encontrada no chocolate, objetos estranhos no refrigerante, na farinha de trigo e nos enlatados. Uma lista imensa de fatos nebulosos que vez ou outra estampa as manchetes dos noticiários.
Visando proteger a população contra a transmissão de doenças como brucelose, tuberculose e febre aftosa entre outras, as unidades federadas editaram normativas com o propósito de inibir o comércio de leite “in natura”, uma tradição principalmente nos pequenos municípios. A alternativa para os produtores que mostraram interesse em permanecer na atividade respeitando a legislação foi a adesão ao programa de pasteurização coletiva, com resultados pouco satisfatórios. Pelo visto o leite comercializado de porta em porta se mostra bem mais saudável que o industrializado, principalmente aquele oriundo de determinada região do País. Não obstante a gravidade dos fatos sabe-se de antemão que apesar de todas as evidências, os responsáveis poderão responder ao processo criminal em liberdade após pagamento de fiança. Como no Brasil as coisas andam a passo de tartaruga, será mais um monte de papel empoeirado nas prateleiras da burocracia. Nota-se que o prejuízo fica sempre com o consumidor, inerte diante da ganância desenfreada e da cultura antiética que acompanha certos empresários desse País.
Já que se torna inviável acomodar no gramado do jardim uma vaquinha ou uma cabrita para ter o prazer de saborear leite fresco todo dia, o jeito é torcer para que o aparelho digestivo resista bravamente à ação maléfica da mistura criminosa. E aceitar com resignação o ônus que o sistema perverso impõe à parte mais vulnerável nas relações do comércio. Porque esperar por alguma postura decente diante de fatos tão graves seria mesmo uma grande utopia.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.