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“Made in Brazil”

De José Luiz Boromelo:
Durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo de futebol a presidenta Dilma foi alvo de vaias por parte do público presente. O coro começou tímido, mas logo tomou conta do estádio causando visível constrangimento na anfitriã e autoridades presentes. A frase escolhida para as demonstrações de descontentamento é muito conhecida e utilizada com frequência pelo brasileiro, naquelas situações em que a paciência e a tolerância são deixadas de lado. Isso já foi incorporado no cotidiano das pessoas e não representa fielmente os sentimentos de quem a utiliza, apenas exprime um desejo expansivo e momentâneo de insatisfação com alguma situação. Dependendo da forma como for empregada, não passa de uma brincadeira sem maiores conseqüências. Ocorre que existem ocasiões em que não se deve reproduzir certas expressões pejorativas (por mais descontraídas que sejam), como naquela transmitida ao vivo para todo o planeta em que milhares de vozes amplificadas em muitos decibéis mostraram o nível sofrível de educação e de respeito que acompanha uma parcela do povo brasileiro.

De antemão a presidenta tinha plena consciência de que estaria sujeita a esse tipo de situação, ocorrida em outro evento semelhante ano passado. Porém, diante da quase obrigatoriedade de sua presença no local como representante maior do País, optou por correr o risco e o resultado não foi dos melhores. As imagens transmitidas aos bilhões de espectadores pelo mundo afora mostraram o torcedor brasileiro sugerindo (sem pudor algum) que sua governanta maior tomasse suco de caju. Certamente essa fruta não agrada seu paladar, pois em pronunciamento público considerou as vaias como críticas desnecessárias e impróprias para menores. Fica evidente que o caráter obsceno da manifestação buscou atingir a individualidade da figura presidencial e não o cargo para qual foi eleita democraticamente. Isso só reforça a certeza de que nossa gente não mede conseqüências nem conhece quaisquer limites quando resolve expor publicamente seus sentimentos imediatos (mesmo diante de convidados ilustres), fato que jamais haveria de ocorrer em qualquer país razoavelmente civilizado. O carão impingido à presidenta é típico daqueles que se dizem detentores de suposta democracia, mas que não se reveste de legitimidade alguma.
Há muito essa nação verde-amarela vem produzindo e estimulando a perpetuação de comportamentos controversos, por conta de uma tendência que privilegia a chamada liberdade de expressão. É evidente que num País de dimensões continentais onde convivem pacificamente pessoas oriundas das mais diferentes etnias, as opiniões serão naturalmente distintas. Porém, o que se observa é uma degradação acentuada de valores éticos e morais, transformando liberdade em libertinagem. A falta de educação e de respeito por parte de determinados grupos em eventos públicos salta aos olhos e reforça a imagem de que o País é relapso na formação de seus jovens. Também não convence mais aquele surrado entoar “sou brasileiro, como muito orgulho, com muito amor”. Além de repetitivo, soa como ufanismo barato, algo um tanto artificial.
No país das liberdades individuais, os direitos prevalecem sobre as obrigações. A incoerência é gritante quando os menores de 18 anos podem votar, mas não respondem pelas infrações cometidas. É inconcebível a complacência de uma legislação penal que ignora a periculosidade daqueles que participam de manifestações violentas depredando patrimônio alheio. Ou que não contemple medidas efetivas para coibir atos vergonhosos, daqueles que fizeram corar Sua Excelência. Caminhamos a passos largos para uma época de permissividade total. Sem o respaldo necessário, as instituições correm o risco de caírem no descrédito. Passou da hora de se retomar o rumo certo, deixando para trás os erros do passado. Como as vaias gratuitas, o vandalismo, a violência exacerbada, a falta de educação e de respeito. Tudo “Made in Brazil”.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista

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