Falta de profissionalimo

De José Luiz Boromelo:
tvO País viveu momentos de extrema consternação diante da tragédia aérea que vitimou o presidenciável pernambucano Eduardo Campos e sua equipe. Desde os primeiros momentos do acidente as redes de rádio e tevê mobilizaram seus profissionais com o intuito de levar ao telespectador as últimas informações em tempo real. Cinegrafistas, repórteres e curiosos amontoaram-se às centenas atrás de notícias, diante do caos instalado no local da queda da aeronave. Logo começaram as especulações acerca da identidade das vítimas, das prováveis causas do acidente e de tudo o que se poderia imaginar numa ocorrência dessa magnitude. As programações televisivas eram interrompidas a todo instante para entradas ao vivo e as imagens não deixavam dúvidas quanto à gravidade do acidente, que acabou por ressaltar uma tendência que predomina em determinados segmentos do jornalismo atualmente.
No País dos modismos e condescendências das mais variadas possíveis se sobressaem as atitudes de certos jornalistas, repórteres e apresentadores de telejornais, já conhecidos do público pelo posicionamento polêmico diante das câmeras. Com posturas no mínimo questionáveis, a cobertura das ocorrências de vulto é transformada em espetáculo de horror, amplificado por insuperáveis argumentos de convencimento ante o incrédulo telespectador. São “experts” em induzir as pessoas a acreditarem no que afirmam sem a necessária comprovação, mesmo com as imagens mostrando a verdade dos fatos. Aproveitam-se da perplexidade momentânea da população para desfiar suas teorias mirabolantes, que não passam de meros palpites corroborados por convidados cordatos, apresentados como especialistas da área. São ilações sem crédito algum, de cunho exclusivamente especulativo e que buscam apenas garantir a audiência durante o desenrolar dos fatos. Nesse caso específico, um apresentador chegou a classificar o piloto como herói, por supostamente direcionar a aeronave para um local com menor densidade habitacional.
É visível a falta de profissionalismo de certos pseudo-jornalistas quando se deparam com a responsabilidade em conduzir acontecimentos relevantes. Parecem querer a todo o momento subestimar a inteligência do cidadão, que obviamente não sintoniza apenas uma única emissora. Com uma linguagem propositalmente dramática, promovem seu show particular tentando convencer os incautos de que são detentores de informações privilegiadas e que a qualquer momento serão levadas a público. Deixam de lado a ética e o respeito ao ser humano quando estimulam discussões totalmente estéreis sobre o ocorrido, relegando a segundo plano o sofrimento de familiares e amigos das vítimas. As emissoras também têm sua parcela de responsabilidade nas coberturas desse tipo de ocorrência. Dedicam ênfase excessiva e expõem minúcias fúteis à exaustão, como se isso fosse realmente imprescindível para manter a sociedade informada.
Evidentemente que a imensa maioria dos profissionais da comunicação se faz acompanhar dos preceitos elementares que norteiam a conduta daqueles que têm o compromisso de bem informar. É compreensível que a liberdade de expressão e a escolha de forma e conteúdo a serem veiculados são inerentes à atividade jornalística, mas é inegável que o excesso incomoda. O profissional da mídia tem a obrigação de carregar consigo o discernimento suficiente para estabelecer limites, atuando de forma a transmitir informações sem se deixar influenciar pelo acontecimento, nem emitir opinião própria. A credibilidade passa necessariamente pela isenção plena do jornalista no exercício de sua função. Quaisquer outras iniciativas dessa natureza comprometem o profissional e a empresa e tendem a afastar seu público. Isso parece não ser um problema, pois os maiores índices de audiência são registrados exatamente pelos programas onde impera a verborragia inútil e sobram expressões pejorativas de todo tipo. Mais uma prova de que há gosto para tudo nessa vida.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.