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Sessão comédia

De José Luiz Boromelo:
Com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na tevê a população tem diversão garantida em horário nobre. Não deveria ser dessa forma, pois o tempo destinado aos partidos políticos é uma oportunidade única para a apresentação dos candidatos aopúblico. Além de ser um canal direto com o eleitor, aquele espaço na mídia busca garantir a manutenção da verdadeira democracia, no momento em que oferece a cada um a chance de expor suas propostas de trabalho. Ocorre que pelo tempo exíguo de alguns candidatos ou por absoluta falta de criatividade de outros, o circo está armado. Assistimos diariamente a uma surpreendente sessão de tiradas hilariantes, típicas daqueles que conhecem com exatidão seu papel suicida nas legendas de aluguel que transitoriamente os acolhem. Ignoram os postulantes a cargos eletivos quando se propõem a representar a coletividade que isso deve ser feito com seriedade e respeito, requisitos mínimos exigidos de qualquer candidato. Em pleno século 21 é inadmissível a presença de figuras folclóricas e excêntricas em pleito eleitoral, até mesmo para preservar aqueles que realmente tenham como objetivo maior a defesa dos interesses da sociedade.
O que se observa nos programas eleitorais obrigatórios é um festival de promessas esdrúxulas, sem consistência fundamentada nem argumentos factíveis. Rigorosamente em todo o País os candidatos do sistema eleitoral majoritário ou proporcional freqüentemente acabam exagerando em suas propostas de campanha. Prometem ações que sabidamente nunca conseguirão realizar e que não se enquadram nas atribuições do cargo que pleiteiam. E fazem isso sem constrangimento algum, aproveitando-se da ignorância e da indiferença do eleitor, que vive mais preocupado em honrar os compromissos assumidos do que conferir o nível de veracidade da falácia matreira utilizada pelos pinóquios contumazes, custeada com recursos públicos via Fundo Partidário. A escolha dos candidatos pelos partidos deixou de ter a credibilidade necessária, talvez até por omissão da legislação eleitoral em coibir casos desse tipo, pois em momento algum a resolução do TSE (que regulamenta as eleições de 2014) e se orienta pelo Artigo 3º do Código Eleitoral, pela Lei Complementar 64/90 e pela Lei 9.504/97, faz qualquer citação sobre esse assunto. Os requisitos exigidos pelo Artigo 31 do Capítulo IV da presente Resolução são: a nacionalidade brasileira, o pleno exercício dos direitos políticos, o alistamento eleitoral, o domicílio eleitoral na circunscrição, a filiação partidária e a idade mínima para cada cargo concorrido. Não existe dispositivo legal específico sobre a conduta dos candidatos durante a campanha.
Por tudo o que se viu até agora, fica a impressão de que o eleitor faz vistas grossas e é conivente com a baboseira apresentada em rede nacional. É notório que certos candidatos carecem de um mínimo de discernimento para serem classificados como pretendentes a algum cargo qualquer. E como a liberdade de expressão é respeitada em sua plenitude (não poderia ser diferente no Estado Democrático de Direito), o eleitor se obriga a aturar o mau gosto dos pára-quedistas eventuais. Diante do festival de sandices sem fim, se sobressaem as velhas raposas da política. Com seu jeito peculiar de conquistar o eleitorado mais arredio acabam amealhando seus votos aqui e acolá, se mantendo no poder por décadas.
Ignorar o horário eleitoral desligando o rádio ou a tevê não é a melhor opção. Há que se fazer um esforço para identificar e avaliar aquelas propostas revestidas por alguma coerência, utilizando o critério da exclusão. Somente dessa forma teremos condições de votar conscientemente, cumprindo com nossa missão cívica. E aproveitar para relaxar um pouco com a diversão garantida.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.

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