De José Luiz Boromelo:
Para a candidatura do PT as coisas tendem a ser mais difíceis do que se imaginava no início do processo eleitoral. A presidenta sofre com os escândalos de corrupção no governo, que a coloca em constante evidência. Dilma resolveu contra-atracar mostrando os resultados de sua administração e principalmente dos projetos sociais em andamento, mas escorrega quando contabiliza como seus alguns números do governo anterior. A embalagem que envolve suas conquistas sociais parece não surtir mais os efeitos desejados, expondo a dificuldade em comprovar aquilo que afirma. A opção de se dirigir ao seu eleitorado em primeira pessoa é outro ponto questionável, pois transmite a impressão de que governa soberana e que é a única responsável pelos destinos do País. Esse posicionamento reduz a importância de sua numerosa equipe, acomodada em dezenas de ministérios, autarquias, secretarias e afins, alguns de discutível relevância. O caminho para a reeleição não será nada aprazível para a presidenta, mas suas chances de êxito são altíssimas, principalmente com o apoio incondicional das classes atendidas pelos programas sociais.
A oposição representada pelo PSDB tenta reverter o quadro negativo que se mostra cada vez mais sombrio. Aécio Neves não conseguiu deslanchar como previa e sua situação piora ainda mais diante da ascendência de Marina Silva. Já se fala numa possível junção de forças (leia-se apoio) para fazer frente à candidatura petista no segundo turno. Ainda assim, o presidenciável tucano procura impingir qualificativos nada singelos à segunda colocada nas pesquisas, tentando fazer o eleitor crer que Marina representa uma “metamorfose ambulante” e que não reúne condições ideais para ocupar o cargo que disputa. Típico posicionamento de campanha eleitoral, no momento que antecede a reta final para o pleito. Sabe-se que a candidata deixou as siglas onde atuava por falta de espaço, fundou a Rede Sustentabilidade e sem conseguir o registro necessário partiu então para uma filiação que a acolhesse em suas expectativas.
Marina Silva acabou como herdeira política natural de Eduardo Campos e numa decisão de consenso do PSB assumiu a candidatura à presidência, com a campanha eleitoral em andamento. Amenizou o discurso, repaginou o visual, passou a evidenciar positivamente suas virtudes e acabou conquistando uma boa fatia do eleitorado. Mesmo que a disposição dos eleitores em conduzi-la à presidência seja uma forma de reverenciar a memória do candidato pernambucano e de quebra apear democraticamente o PT do poder, não se pode subestimar sua capacidade em driblar as adversidades. Marina possui atributos de sobra para isso e não foi por acaso que passou de terceira via a virtual candidata. Se o eleitor procurava uma alternativa para redirecionar seu voto, essa condição existe agora. Por obra do destino, essa eleição tem tudo para ser uma das mais interessantes.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista.