Vinagre nas festas

De Luiz Geraldo Mazza, hoje na Folha de Londrina:

Era só que faltava: vinho acre, vinagre, nas festas. O tzar financeiro acusou os demais poderes de não serem solidários ao esforço do Executivo vivendo em oásis de tranquilidade. Isso, aliás, ficou bem claro quando à exceção do Executivo todos – Judiciário, Legislativo, Ministério Público e Tribunal de Contas – se recusaram ao sacrifício e deram a seus componentes os 8% e pouco da inflação acumulada.
Cabia ao governador (e não a seu secretário) o papel de uma convocação que acabou não fazendo pela austeridade e negociando, via diálogo, a partilha de esforços dos demais poderes, o que não fez e agora com as declarações explosivas de Mauro Ricardo Costa de que outros agem na compulsão da prodigalidade a crise está instalada.

Beto Richa não tem a pegada dos líderes como a de seu pai que sabia como conduzir esses entendimentos ainda que tenha sido quem mais concessões fez aos poderes na cota que lhes cabe no orçamento. Depois dele esse percentual só aumentou, aliás bem ao estilo das coisas da terra no peso da confraternização e do acerto.
O presidente do Tribunal de Justiça, Paulo Vasconcellos, acusado de aplicar recursos entesourados, reagiu e depois de pedir que Mauro mostrasse as provas o chamou de mentiroso. Aí, seguiram-se as encenações da moda com o presidente da Assembleia, Ademar Traiano, baixando o porrete no secretário da Fazenda e dizendo que mobilizações para o sacrifício comum são feitas com diálogo e não afirmações destemperadas e afirmando que o seu Portal de Transparência é prova da lisura com que age. Enfim ,um teatro mambembe como tudo que se dá em nossa política.
Pior do que o conflito verbal foi a retenção, por parte da pasta fazendária, de R$ 100 milhões do Judiciário, alegando que isso é indispensável para pagar o funcionalismo, antecipação de que as contas vão estourar logo logo e passaremos pela síndrome dos gaúchos.
Falta a Beto Richa a chispa, o fulgor, do líder, do agregador e como não sabia nada que seu amigo das arrancadas automobilísticas aprontava nas trutas da gangue fiscal e também da ligeireza do seu parente distante, Luiz Abi, no comando das operações denunciadas pelo Gaeco, também ignorava o que Mauro Ricardo Costa tinha declarado em público acusando os outros poderes de exorbitância.
Agora, tenta conter os impulsos dos ofendidos que pedem no mínimo a cabeça do secretário isso se tanto o Ministério Público quanto o Tribunal de Contas não dispararem seus foguetes. Como se vê pedaladas não são apenas fiscais.

Mal assessorado
Dentre as declarações do desembargador Paulo Vasconcellos, imediatamente apoiadas por seus pares, a referência de que o governador é mal assessorado e mal informado é um indicador sutil de que aquele que detém a maior força no estafe é abusivo, além de mentiroso. O governador, meio sem jeito, tenta recuperar-se com a declaração tardia de que na hora das crises se deve cobrar a solidariedade de todos. Não teve inspiração para fazer esse apelo na hora aprazada e, ainda por cima, vimos recentemente crescerem os gastos do Judiciário, Ministério Público e Tribunal de Contas com benefícios assistenciais, vantagens a cargos em comissão e até os crônicos pagamentos de atrasados, velha tradição do funcionalismo de um modo geral, quase sempre seletiva, minoritária, mas seguramente arrasadora.

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.