De José Luiz Boromelo:
Considerada como uma obra-prima da literatura, “Vidas secas”, de Graciliano Ramos retrata sob uma visão crítica, as dificuldades do sertanejo nordestino ante o clima árido, que impõe sofrimentos diários na busca pelo precioso líquido, vital para a manutenção da vida.
Guardadas as devidas proporções de espaço e tempo, a população da Cidade Canção vivenciou, por alguns dias, a realidade daqueles que padecem por anos a fio sem ter a quem recorrer nos momentos de maior necessidade.
E por ironia do destino, a água que sacia a sede e propicia a vida é a mesma que provoca transtornos dessa magnitude, em que centenas de milhares de pessoas ficaram à mercê de uma estatal, inexplicavelmente relapsa com suas atribuições, mostrando o tamanho do desrespeito para com o cidadão.
No ano de 2012 a Sanepar foi alvo de investigações por parte da Polícia Federal, sob a suspeita de que algumas unidades de tratamento de esgoto da empresa estariam (em tese) despejando efluentes no Rio Iguaçú sem o devido tratamento, contribuindo assim para sua poluição. Depois de alguma polêmica e comunicados veiculados na mídia (na ocasião, a empresa anunciou investimentos de mais de 2 bilhões de reais em obras), o assunto acabou esquecido, pelo menos para o cidadão comum, que acompanha o noticiário diário. Agora, a natureza se encarregou de desmascarar a farsa divulgada em embalagem de luxo, apresentada como empresa modelo do Paraná por sua “eficiência” na prestação do serviço e elevada a um patamar de excelência nos comerciais televisivos, tentando ludibriar a boa fé do povo paranaense. Aqui não se busca estimular a crítica leviana, na esteira das reclamações intermináveis daqueles que foram prejudicados com a falta de água, mas analisar com imparcialidade os acontecimentos e suas consequências, até mesmo para que fatos dessa natureza não se repitam no futuro.
É sabido que o fenômeno meteorológico que provocou a situação atual foi um caso atípico na região, pelo menos nos últimos 35 anos. E que outras unidades da Federação foram castigadas pelo mesmo evento, com efeitos similares. Mas o que não se pode tolerar é a incompetência dos diretores e ocupantes de cargos relevantes da empresa no gerenciamento da crise que se estabeleceu. O fato de inexistir um plano alternativo para emergências (a empresa diz o contrário) é mais um agravante, que acaba somando-se com os equívocos durante e após o evento. Há que se discutir com os diferentes segmentos da sociedade maringaense a razoabilidade da manutenção do contrato de prestação do serviço com o município, diante dos inconvenientes impingidos aos consumidores. É inadmissível que a população seja penalizada pela total incompetência dessa empresa, que outrora se mostrou eficiente, mas negligente ao extremo nesse caso específico. Os órgãos de defesa do consumidor certamente haverão de buscar algum tipo de reparação aos danos causados, seja pela imposição de multas ou outros meios previstos na legislação específica, até mesmo porque como ficou evidente, a empresa não cumpre fielmente com seu papel social, no momento em que prioriza o lucro em detrimento das necessidades básicas do cidadão. E apesar da eventualidade climática, o consumidor não clama por favores, apenas exige o que é seu por direito, premissa elementar nas relações do consumo.
Alternativas que visem minimizar os efeitos de interrupções pontuais de fornecimento de água poderiam ser propostas pelos poderes Executivo e Legislativo através de projetos de lei, como por exemplo, o desconto no valor do IPTU para os imóveis que possuam captação de águas pluviais e outras, a serem debatidas com a sociedade. O cidadão maringaense não merece passar pelas agruras semelhantes às do sofrido povo nordestino, mesmo porque a natureza foi pródiga com essa terra abençoada. E por aqui, os incompetentes, definitivamente, não haveriam de se estabelecer.
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista