O caos na saúde e o novo ministro

Do jornalista Alex Ferraz, na Tribuna da Bahia:

Comecemos com a notícia a seguir, publicada pela revista Época: “O maior doador individual da campanha de Ricardo Barros (recém-nomeado ministro da Saúde) para deputado federal pelo Paraná em 2014 foi Elon Gomes de Almeida. Elon é sócio do Grupo Aliança, administradora de benefícios de saúde, e disponibilizou R$ 100 mil para a campanha de Barros. A Aliança mantém registro na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), vinculada ao Ministério da Saúde.

Além de ajudar Barros, Elon doou R$ 600 mil para a campanha de Vital do Rêgo (PMDB), candidato derrotado ao governo da Paraíba, R$ 200 mil para o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), que foi eleito, e R$ 100 mil para Eliana Calmon (PSB), que se candidatou ao Senado na Bahia, mas não conseguiu se eleger.
Recentemente, Elon foi alvo da Operação Acrônimo da Polícia Federal. No dia 16 de dezembro, a PF realizou busca e apreensão em sua residência. Uma empresa de Elon, a Support, fez transferências no valor de R$ 750 mil para o empresário Benedito de Oliveira, o Bené, amigo do governador mineiro Fernando Pimentel. Perguntado por ÉPOCA em 18 de dezembro sobre quais serviços Bené prestou para ele, Elon afirmou, por meio de advogados, que as relações de sua empresa com as empresas de Bené eram ‘privadas”.
Então, podemos entender muito bem a razão do “ato falho” do novo ministro da Saúde, quando ele afirmou que o SUS não tem condições de atender a todos e que poderia até encolher ainda mais.
Então, podemos entender que saímos (saímos?) de um governo que sempre menosprezou a saúde, que nunca titubeou em conter o SUS (assim como fizeram tantos outros), para cair nos braços de um “novo” governo onde, pelo visto, teremos tudo a temer em relação a uma piora, se é que isso é possível, do atendimento público de saúde no Brasil.
A todo momento, reportagens na TV, em todos os canais, mostram depoimentos indubitáveis de pessoas que penam para conseguir tratamento. São mamografias marcadas para prazos de um ano ou mais, gente esperando cirurgia há quatro anos, filas gigantescas, hospitais sucateados com pacientes pelos corredores, sem o atendimento adequado, um caos, enfim.
São filas humilhantes nas madrugadas em busca de senhas, já que ser atendido tornou-se um macabro sorteio; é a falta de vacinas para campanhas restritivas do governo (essa história de público-alvo é uma piada de mau gosto, pois todos deveriam ser vacinados) etc.
Na alta esfera do poder, em Brasília, inúmeras aranhas mutiladas brigam nas teias do governo, todos em busca de como locupletar-se cada vez mais, de como galgar cargos, inclusive em governos estaduais, através da máquina pública.
E todos baixam a cabeça, de forma absurda, para os acenos de que não haverá mais verbas para saúde nem para a segurança pública, como se fosse possível alguém que realmente lute pelo bem da sociedade manter-se neutro diante de tamanha crueldade.
Somos obrigados a compreender que nada mudou, pois o descaso para com aqueles que abarrotam os cofres públicos para sustentar a vida nababesca de deputados, senadores, governantes, juízes etc. continua o mesmo. O mesmo dos tempos de Sarney, de FHC, de Lula e de Dilma.
Pois é: somos obrigados a ser mais pacientes do que nunca, embora, como pacientes, sejamos submetidos a tanta humilhação.
Alex Ferraz é repórter e colunista diário da Tribuna e escreve neste espaço às sextas-feiras.