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Carta aberta aos candidatos ao cargo de prefeito de Maringá

Por Zery Monteiro:

Considerando a criatividade do povo brasileiro, enquanto a reforma política não vem, cada vez mais os modelitos “Não vou votar em ninguém” ou “Vou votar em branco” estão sendo os preferidos pelas pessoas para usarem nas urnas.
Já o impítimam, ou golpe, conforme preferirem, está super em alta no Brasil, podendo tornar-se uma forte tendência e fazer parte da moda política brasileira. Sendo assim, movida pelo total estarrecimento do quadro atual, resolvi elaborar sugestões ou possibilidades, que são fruto das reflexões que fiz durante as diversas gestões que trabalhei, ao longo de 28 anos, como funcionária pública do município de Maringá.

Não precisam prometer trazer o mar pra Maringá, basta não governarem apenas para aquela Maringá elogiada pela qualidade de vida e fazerem vista grossa para a Maringá da desigualdade social, da inexistência de infra-estrutura e que é inacessível para boa parcela da população.
Não precisam se preocupar em conhecer as melhores cidades do mundo, basta se dedicarem a conhecer cada vez mais os habitantes e a cidade que pretendem administrar.
Não precisam fazer dreads, usarem colar guarani, fazerem vídeo lavando a louça, visitarem terreiro, tirarem selfie com cadeirante, batizarem-se numa igreja evangélica, mandarem benzer a prefeitura e dizerem que “até têm” um amigo gay, basta respeitarem a diversidade de nosso povo.
Não precisam contratar a Price Waterhouse Cooper e nenhum arquiteto de renome internacional para propor um plano de desenvolvimento urbano-regional, para que a cidade se desenvolva qualitativamente, basta promoverem um debate público com a cidade e seus municípios vizinhos para fazerem o planejamento urbano regional, construírem um plano diretor metropolitano e depois segui-lo.
Não precisam prometer reformar todos os imóveis das unidades municipais de bairros, transformando em prédios de dez andares com elevadores panorâmicos, basta consertarem as infiltrações e goteiras.
Não precisam prometer água mineral até pra tomar banho, basta exigirem que, haja o que houver, a Sanepar deverá garantir o abastecimento de água tratada e sem cheiro para todos os moradores da cidade.
Não precisam prometer o trem-bala para Maringá, basta garantirem que a TCCC coloque a quantidade de ônibus necessária para atender a população.
Não precisam prometer transporte público gratuito para a população, como já acontece em Ivaiporã (PR), Potirendaba (PR), Agudos, Anicuns, Itatiaiuçu, Maricá, Muzambinho, Paulínia, Pitanga, Porto Real e Silva Jardim, basta garantirem que o preço seja justo e não o mais caro do Paraná e dos maiores do Brasil.
Não precisam criar o Programa de Atletas de Alto Rendimento de Maringá, basta oferecerem transporte público gratuito para as crianças e jovens que desejam participar dos cursos oferecidos nos centros esportivos de Maringá.
Não precisam prometer trazer o Cirque Du Soleil, basta garantirem o serviço de transporte público na quantidade e horários necessários para a população poder participar dos eventos culturais gratuitos, realizados no período noturno, feriados e finais de semana.
Não precisam prometer pontos de ônibus com painel que faz massagens da Kit Kat, basta que tenham banco, iluminação e cobertura para proteção do sol, já que da chuva é mais difícil.
Não precisam prometer recontratar Luis Riogi Miura, basta reconhecerem que dez anos depois de seu alerta, possivelmente uma parcela da população continua privilegiada, cometendo infração no trânsito, já sabendo que ficará isenta da multa.
Não precisam prometer desburocratizar totalmente a contratação para apresentações de artistas ou palestrantes, basta criarem uma base de dados que permita que pelo menos alguns documentos sejam entregues apenas uma vez e não em várias duplicatas. Já no caso do contratado ser de outra cidade, não exigir mais a Certidão Municipal Negativa de Débitos do município que eles moram.
Não precisam prometer que se tornarão os Pepes Mujicas maringaenses, basta saberem que o candidato eleito será o administrador temporário da cidade e não o dono dela.
Não precisam prometer suicidarem-se politicamente nomeando os melhores técnicos do país para os cargos comissionados, basta que, ao cumprirem os acordos políticos, orientem cada empossado, que o respeito aos funcionários é fundamental para garantir um bom legado à população, afinal eles já trabalhavam há décadas antes de sua posse e continuarão ali após sua exoneração.
Não precisam pedir para que os funcionários com cargos de chefia tornem-se seus compadres, basta não pedirem que adesivem carros no sinaleiro em época de campanha.
Não precisam prometer que irão convidar o Dalai Lama para vocês e os funcionários tentarem alcançar o Nirvana, basta não obrigá-los a realizar missões impossíveis para atender o capricho de alguém.
Não precisam prometer cursos para os funcionários na Universidade Sorbonne, basta facilitarem a participação dos mesmos nos cursos e eventos de suas áreas de trabalho.
Não precisam pedir amizade no Facebook, dos funcionários que têm ideologias políticas diferentes das suas, basta respeitar a opção de cada um.
Não precisam prometer que pedirão a participação da Young & Rubicam na licitação de publicidade para divulgação dos eventos, basta definirem um calendário anual com a programação e divulgarem por meios impresso e digital.
Não precisam prometer fazer um exoesqueleto da neurociência maringaense, basta deixarem de fazer eventos a toque de caixa, respeitarem uma programação anual, darem continuidade ou melhorarem os projetos existentes e só aprovarem novos projetos, após passarem pelo crivo dos funcionários que irão operá-lo diretamente.
Não precisam prometer customizar materiais de expediente, basta que sejam adquiridos fitas adesivas que aderem, canetas que escrevem, borrachas que apaguem, grampos que grampeiem e lápis feitos com madeira de corte fácil e que permaneçam com a ponta do grafite quando são apontados.
Não precisam prometer contratar o maior especialista em educação da Finlândia, basta permitirem que professores e alunos possam decidir como deverá ser a escola que desejam e em qual candidato a diretor irão votar.
Não precisam prometer contratar a Paola Carosella para fazer a merenda escolar, basta não imporem suas opções alimentares no cardápio.
Não precisam prometer disponibilizar equipamentos e serviços da mais alta tecnologia em todos os setores da prefeitura, basta acabar de informatizar os serviços necessários, disponibilizar Internet e equipamentos que funcionem.
Não precisam se empenhar para serem indicados para um Prêmio de Direitos Humanos, basta darem maior apoio à ASSINDI e não serem indiferentes com a violência nas periferias, em especial com os excessos contra os jovens negros.
Não precisam prometer wi-fi para a cidade inteira, basta disponibilizarem em alguns pontos de maior circulação, no centro e nos bairros.
Não precisam construir um hospital similar ao “Johns Hopkins” , basta aumentar de forma significativa, o número de consultas com médicos especialistas.
Creio que não preciso elencar mais possibilidades, não porque não existam, mas porque o exposto já sinaliza que não precisam gastar toneladas de maquiagem para disfarçar a face desse sistema político decadente, basta que o eleito reconheça que foi o povo, com seu voto, que o colocou no poder e espera melhorias, sejam elas culturais, sociais, educativas ou outras, mas acima de tudo, deseja que se torne público o que é público, sem maquiagem, começando por esclarecer a suspeita de fraude na licitação do transporte coletivo em Maringá.

Zery Monteiro,
Maringá, 29 de agosto de 2016

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