O padre amigo

A Biz cor verde metálico está estacionada atrás da catedral: o padre está atendendo
“Atendimento Espiritual”, diz a plaquinha da porta

Pego um folhetinho sobre coisas da alma, leio e aguardo
Penso: faltam cinco para a minha vez…
Aparece um homem na sala, de calça e camiseta rasgadas, descalço, e pede para falar com o padre, “é rapidinho”
A moça que está na vez consente
– Obrigado, padre! Diz o homem ao sair…
Passa meia hora e chega a minha vez

Na salinha: a mesa, o vitral colorido, o homem grande, o grande homem na minha frente, um olhar profundo, uma voz de baixo, um coração de cima, um sorriso:
– Quanto tempo, jovenzinho! Você está grande, maneirar na comida hein?! Fazer exercícios, é muito importante também!
– Está certo, padre!
– E o que você está fazendo da vida?
– Estudando, namorando, fazendo estágio, saindo com os amigos…
– Ah, muito bom! Sabe que eu já evangelizei na UEM? É, dei aula um tempo também lá…

Um olhar profundo, uma voz de baixo, um coração de cima, um ouvido atento:
– Quais são seus pecados, jovenzinho?
– Então padre…
– Continência, jovenzinho, continência…sabe que a nossa alma é um jardim? E que, quando mais nós cuidamos desse jardim, mais perfumado e florido ele fica? Sim… por isso, temos que confessar e, cada vez que confessamos, nossas almas ficam limpas do pecado… Só que o pecado deixa cicatrizes na alma e, essas cicatrizes só podem ser retiradas com as indulgências…com nossas almas limpas, não vamos para o purgatório, jovenzinho… mais alguma coisa?
– Acho que é só isso, padre.
– Eu, pelo ministério da Igreja, absolvo de todos seus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, Amém!
– Obrigado, padre!
Um olhar profundo, uma voz de baixo, um coração de cima, um sorriso
– Vai com Deus menino, vai!

E todas as tardes, todos os dias depois da missa das 18 horas, lá estava o Padre Geraldo, preocupado com as almas dos vivos,
E todas as manhãs, no cemitério, ocupando-se com a alma dos mortos
E sempre celebrando missas, desde o último século do segundo milênio até o primeiro do terceiro milênio
E através da 3º Milênio
E sempre fazendo obras de caridade pois “a fé sem obras é morta”
E que fé viva ele teve!
Vide reportagem na Veja de 86, vide reportagem de Luiz de Carvalho de 2016, vide o presente testemunho deste jovem, que tantas e tantas vezes procurou uma orientação com o Padre Geraldo e, mais que um confessor, encontrou um ouvido atento, um coração gigante, um amor sem fim pelo próximo e um entusiasmo grande demais para uma só pessoa

Esse jovenzinho encontrou um amigo, e sentirá saudades dele

Assinado: Jovenzinho