Dê uma arma para sua mãe

De Renato Terra, na Folha de S. Paulo:

Ao flexibilizar o porte de armas na mesma proporção em que corta verbas da educação, o Brasil está no caminho certo: quem não tem dinheiro para estudar poderá ao menos adquirir uma arma com mais facilidade.

Armas são perfeitas para equacionar todo tipo de problema de maneira simples, eficiente e definitiva. São as melhores amigas dos brasileiros de bem. Verdadeiros cachorros cromados.
Comecemos por demandas das mais prosaicas. Quer um copo d’água? Basta apontar uma arma para alguém e pedir.
Acabou o açúcar na sua casa? Precisa de azeite? Mostre a arma para seu vizinho ou ao caixa do mercado mais próximo e saia com quantas unidades conseguir carregar.
Tá com pressa? Precisa chegar mais rápido no trabalho? Arma serve tanto para conseguir carona quanto para cobrar agilidade do condutor.
Mas arma também é a chave para engrenagens mais complexas. Quer exterminar a pobreza? Basta apontar uma arma para as periferias. De preferência do alto de um helicóptero. Quer ser atendido pelos melhores hospitais? Em vez de plano de saúde, arma.
E, no futuro, para que a segurança de todos aumente, bastará amplificar a letalidade das armas que o cidadão de bem está autorizado a portar.
Por isso, neste domingo, não perca tempo escolhendo roupas, livros, flores ou celulares de última geração. Dê uma arma para quem te colocou no mundo. Arma é amor. Sua mãe vai se sentir segura e protegida como se estivesse num útero blindado.
Enquanto prepara o almoço para a tradicional família brasileira, sua mãe saberá, lá no fundo, que todos os problemas dentro e fora da sua casa estarão resolvidos enquanto tiver uma arma na bolsa.
De quebra, só ela saberá usar a arma para preparar aquela sobremesa com gostinho de infância que você adora. Calibre de mãe só tem um.

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.