O presente de mamãe

Por José Luiz Boromelo:

As coisas iam de mal a pior naquela casa. O pai, desempregado há meses, sofria com a humilhação diária na busca por uma colocação qualquer, que garantisse alguns parcos trocados. Sua pouca qualificação lhe permitia viver apenas de bicos, na maioria das vezes, esporádicos.

As contas de aluguel, água, energia e mercado se acumulavam sobre a geladeira. A mãe fazia malabarismos para colocar alguma coisa na mesa, reflexo da despensa completamente vazia. Além das intermináveis e exaustivas atividades domésticas, se dispunha a pequenos consertos em roupas, uma forma de garantir pelo menos o mínimo indispensável para a sobrevivência dos filhos. Aquele almoço do dia das mães não parecia nada animado. O silêncio incomodava. A mãe, demonstrando preocupação com a situação, tentava amenizar o clima pesado. “Hoje tem frango assado, parece delicioso…”. Após a prece costumeira, o bater dos talheres ditava o andamento monótono daquele que, por tradição, haveria de ser um dia importante. A filha mais velha, já beirando os 12 anos, mantinha o olhar fixo no prato. A do meio, vez ou outra olhava de soslaio para o pai, que fingia não perceber o desapontamento da menina. Coube à caçula, prestes a completar seis primaveras e conhecida pela tradicional incontinência verbal, soltar mais uma das suas.
“A mamãe vai ganhar um presente”. A mulher ficou estática. Há dias desconfiava dos cochichos escondidos da pequena com as irmãs. Diante do interesse da família, a menina continuou. “Mas não vai ser hoje”. A refeição foi esquecida imediatamente. Todos se voltaram para a tagarela, que parecia se divertir com o interesse dos demais. Ruborizada e paralisada com a inesperada iniciativa, a mãe vacilou por um instante, tempo suficiente para a menina completar: “A família vai aumentar mais uma vez”. Aquela frase inocente teve o efeito de um abalo sísmico. A gravidez inesperada e inoportuna naquele momento era mantida em sigilo (pelo menos enquanto as mudanças do corpo não denunciassem a novidade), por conta da caótica situação financeira da família. O “descuido” conjugal fora captado sem querer pela pequena, de uma conversa reservada aos adultos. A mãe não conteve as lágrimas, que teimavam em escorrer copiosamente. O choro se transformou em desespero, estimulado pelos olhares de incredulidade das filhas. O que faltava acontecer ainda, em um lar marcado por todo tipo de dificuldade? Alguém trouxe água com açúcar e um providencial abano com toalha molhada normalizou a temperatura da gestante. O almoço dominical acabou abandonado sobre a mesa. Com o segredo revelado, restava agora redobrar os cuidados para garantir a saúde da mamãe e do bebê que estava a caminho.
Em meio ao caos instalado temporariamente, logo surgiram os abraços carinhosos e as demonstrações de alegria (e de preocupação) ante a novidade. Sugestões para o nome da criança e as responsabilidades de cada integrante da família também foram motivo para disputas sadias. O banho, as roupinhas bem passadas, os sapatinhos de crochê, o berço decorado, o carrinho de bebê da filha mais nova. Tudo detalhado minuciosamente, recheado com muito carinho. Em meio às incontáveis dificuldades, a mamãe ganhou enfim, seu maior presente: o amor da família, o apoio do esposo, o aconchego do lar. Coisas simples, mas de valor incalculável. Feliz dia das mães!
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(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva.

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.