Vamos separar o joio do trigo?

MG1

De leitor:

Começo com uma ressalva fundamental: sou defensor da universidade pública, gratuita e de qualidade. Admirador da UEM, patrimônio do Paraná e maior instituição de Maringá e região. Porém, precisamos separar o joio do trigo.

MG1

Há anos as universidades estaduais vêm sofrendo cortes, ataques e retaliações do próprio Governo do Estado, o qual deveria ser além de seu financiador o maior incentivador. A sociedade, algumas entidades, hora apoiam hora criticam, e nem sempre estão equivocadas nas críticas. Se as universidades há anos sofrem com ataques e falta de apoio externo também sofrem há anos com má gestão interna e corporativismo. Este é o ponto chave.
Por exemplo: como defender o Tide para todos? O Tempo Integral e Dedicação Exclusiva (Tide) é um benefício que o professor recebe para dedicação exclusiva às atividades de Pesquisa e Extensão da instituição, que acrescenta 55% sobre o salário base. No entanto, é vedado ao docente em Regime Tide: a) exercer outra atividade remunerada regular ou manter vínculo empregatício no setor público ou privado; b) atuar como profissional autônomo ou participar, com remuneração, de conselhos de entidades privadas; c) desempenhar funções que impliquem em responsabilidade técnica ou administrativa em empresa ou instituição da qual seja sócio cotista ou acionário. Ora, quem está lá dentro sabe (não estou generalizando, mas também não são casos únicos) que tem professor que não cumpre nem as 40 horas de trabalho pelo qual é pago quanto mais ao TIDE. E o professor que “entra” no projeto do colega só para ter direito ao TIDE? Vamos defender o Tide para quem cumpre a carga horária, ministra aulas de qualidade e legitimamente o merece com projetos de relevância e impacto na sociedade (e as Universidades tem sim muitos professores que se enquadram nesse perfil). Teoricamente há um crivo quando um professor solicita o TIDE, porém, o corporativismo deixa de fazer uma análise profunda com base na meritocracia (o famoso pró-forma, utilizado em muitas outras situações).
Quanto a não autorização das horas para renovar os contratos dos professore temporários, muitos professores efetivos estavam na verdade desesperados com a possibilidade de ter que ministrar 10, 12 ou 14 horas semanais, pois se acostumaram a ministrar 8 horas/aula por semana. Entendemos que é necessário tempo para preparar aulas, avaliações, correções, orientações, mas, destinar um terço da carga horária para ministrar aula e dois terços para as demais atividades não parece ser incoerente.
E a ética na instituição? Os apadrinhamentos nos concursos, testes seletivos e seleção de alunos de mestrado e doutorado? Quantos casos de amigos, parentes e cônjuges aprovados? O marido aprovado no concurso, o professor que começou a namorar a aluna que na sequencia ingressa na pós-graduação, “ganha” bolsa de estudos. O professor e o funcionário que faltam, atrasam e o chefe finge que não vê? Novamente o corporativismo encobre algumas situações ilícitas.
Por que não vemos ações de economia e uso racional de recursos? Nas compras, licitações, incentivo ao uso racional de materiais, água, luz, telefone? Economia nos gastos com diárias de viagem. A universidade precisa mesmo de cargos comissionados? Por que não trabalha somente com os concursados? (Isso deveria valer para todo órgão público). Até pagamento para publicação de artigo existe. Ora, a publicação é pessoal ou institucional? O custo benefício compensa para a instituição? Internamente nem se discute, tem dinheiro paga.
UEM pare de culpar somente o governo pela sua conjuntura. Continue exigindo incentivo, valorização e reconhecimento do governo, é dever do estado e seu direito, mas, vamos separar o joio do trigo. Faça sua parte, mostre seu valor de instituição ilibada. Quem sabe um choque de gestão? Contensão de gastos, economias. Racionalize o uso de recursos públicos. Baseie suas deliberações em meritocracia e não no corporativismo ou no apadrinhamento. Seja inovadora, propositiva, eficaz, competente na gestão. Impacte a sociedade com sua produção de conhecimento. O reconhecimento e a credibilidade irão prosperar na mesma proporção da eficiência e transparência na gestão. A sociedade precisa e quer uma UEM próspera, mas, está na hora dessa nobre instituição ser diferente, mais dinâmica, transparente e eficiente.

MG1

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.