Bolsonaro porta-se como
um banana no laranjal

De Josias de Souza:

air Bolsonaro enxergou na batida de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal em endereços do correligionário Luciano Bivar, presidente do PSL federal, uma oportunidade a ser aproveitada. Para o capitão, o agravamento das suspeitas que rondam Bivar no escândalo do laranjal serve de “justa causa” para que sua tropa parlamentar possa acompanhá-lo no desembarque do PSL sem abrir mão de mandatos e da verba pública do fundo partidário. O pretexto seria ótimo, não fosse por um detalhe: no caso das candidaturas femininas laranjas, Bolsonaro escolheu desempenhar o papel de um banana. Ele se absteve de exercer a autoridade presidencial na hora oportuna.
Houve um momento em que Jair Bolsonaro poderia ter saído do laranjal tomando o caminho da moralidade. Foi quando a Polícia Federal abriu inquérito para apurar a suspeita de que o ministro Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, serviu-se de candidatas laranjas para desviar verbas públicas do fundo eleitoral do PSL em Minas Gerais. O presidente já havia exonerado o ministro palaciano Gustavo Bebianno sob o pretexto de que ele avalizara candidaturas de laranjas quando presidiu o PSL nacional, durante a campanha de 2018. Era só manter a linha. Mas o capitão preferiu conservar Marcelo Antônio no ministério.
Há 11 dias, a Polícia Federal indiciou e o Ministério Público denunciou Álvaro Antônio por falsidade ideológica, apropriação indébita e associação criminosa. Foi como se a conjuntura oferecesse a Bolsonaro uma segunda chance para agir. Mas a cabeça do ministro do Turismo continuou equilibrando-se sobre o pescoço. Para complicar, surgiram indícios de que parte do desvio mineiro pode ter sido usado para pagar despesas da campanha do próprio Bolsonaro em 2018. O presidente tornou-se, então, uma oportunidade a ser aproveitada pelos correligionários que enxergam um quê de cinismo na cobrança que ele faz por transparência partidária.
Se o comportamento de Bolsonaro e as investigações da Polícia Federal tivessem caminhado na mesma direção, o capitão não precisaria nem deixar o PSL. Poderia encostar Luciano Bivar contra a parede e reividicar a chave da milionária caixa preta partidária. Com a vantagem de reforçar o discurso anticorrupção que exibira ao longo da campanha presidencial. Ao oscilar entre a marcha a ré e o ponto morto, Bolsonaro apenas reforçou a sensação de que a nova política é coisa muito antiga, é banana amassada.

Angelo Rigon

Jornalista em Maringá. Pioneiro em blog político, foi repórter e apresentador de programas de rádio e televisão, além de ter editado jornais e revistas. É comentarista da Jovem Pan Maringá.