A pandemia do coronavírus e as eleições municipais em Maringá
Por Ana Lúcia Rodrigues:
Este texto é um manifesto contra a avareza (“substantivo feminino; 1. qualidade ou característica de quem é avarento, de quem tem apego excessivo ao dinheiro, às riquezas; 2. falta de magnanimidade, de generosidade; mesquinharia, mesquinhez, sovinice”) e contra o egoísmo. E um clamor por um pouco de humanidade e empatia (“substantivo feminino; 1. Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias”).
Não gostaria de abordar o tema eleições municipais nesse momento em que se acumulam angústias, incertezas e a perspectiva de crise que bate à porta, mas não posso me furtar de andar por esse caminho espinhoso. Talvez um pouco na esperança de que as lideranças políticas de nossa cidade não ultrapassem o limite da ética, com a antecipação da disputa que se dará em outubro ou dezembro, o que ninguém sabe ainda, em especial nas redes sociais, mas não só. Maringá nada ganha com isso agora. A população nada ganha e todos os políticos perdem, podem ter certeza. O que Maringá precisa agora é da união de todos na batalha contra esse vírus desconhecido, no enfrentamento dessa pandemia que está desestruturando o modo de vida e de convívio familiar e comunitário de todos nós. O que parecia distante se aproxima, o que era apenas uma sensação se torna real. As estatísticas que aparecem nos boletins da Secretaria de Saúde diariamente no final da tarde, agora ganham mapa com localização. O “caso positivo” começa a soar familiar e já está na vizinhança. O que era distante agora sai das estatísticas e ganha nome, nos assusta e silencia os debates desnecessários. Os Antonios, as Marias, os Josés, as Rosas e outros participantes dos nossos grupos, estão confinados com suas famílias. Os colegas que trabalham na saúde estão sendo infectados e confirmados com Covid-19. O amigo de tantas batalhas está na UTI fazendo a luta mais importante da sua vida e não podemos empunhar com ele essa bandeira.
Sei muito bem que muita gente pode não medir as consequências ao tentar transformar em indignação as divergências com as medidas adotadas pela administração municipal. No enfrentamento ao contágio massivo, os decretos são uma tentativa de organizar a fila para as poucos mais de 250 vagas na UTI, para que milhares de infectados não cheguem ao mesmo tempo. Mas vamos fazer o que está ao nosso alcance, em nossa cidade, para reduzir ao máximo as consequências sem esquecer dos demais municípios, pois a dinâmica que integra os vizinhos a Maringá é econômica, ambiental, social, urbana e também de contaminação. A Coordenadoria da RM de Maringá precisa atuar com a Amusep. É evidente que quando um sujeito público ou uma liderança política torna pública sua opinião, tem plena ciência do que busca alcançar. Sem pretender ser a dona da verdade, conclamo os(as) líderes a colocar suas vozes e seus atos em favor da vida. Usem a influência pela maior causa que suas histórias pessoais já tiveram. Agora é a hora de união pela preservação da mais valorosa obra: a vida. Deixe nas suas biografias a marca de quem trabalhou pelo bem maior. Ao menos temporariamente, esqueçam os valores materiais e pensem apenas na sobrevivência de milhares de pessoas que dependem dos seus atos. Juntem-se às alternativas para que tenhamos o menor número possível de vítimas.
Quero reiterar aqui o que já escrevi em outro momento: “já está provado que o novo vírus não escolhe classe social, gênero, cor, mas venho procurando demonstrar com dados de pesquisa, que as consequências não são as mesmas para todos e, certamente, os que estão em situação mais vulnerável sofrerão mais…” Minha percepção é de que outra sociedade é possível e estou convencida de que a avareza e o egoísmo de alguns darão lugar à empatia.
Sei, ao fim disso tudo, poderemos agir efetivamente em Maringá, com políticas públicas para reduzir as desigualdades sociais. Antecipar o debate eleitoral é até legitimo em se tratando de articulações para garantir visibilidade, mas ninguém vai conquistar eleitores jogando com a vida das pessoas. Além disso, é de conhecimento do meio político de Maringá que aqui, quase sempre, vence o consenso de que nada ou pouco deve mudar no sistema de governar a cidade. Se houver ousadia em algum momento eleitoral, após a posse do vencedor vem a rendição. Que assim seja se é a vontade da população, mas não podemos nos render aos interesses meramente eleitorais e muito menos deixar de lutar contra esse vírus devastador. Agora a nossa luta é pela VIDA.
(*) Ana Lúcia Rodrigues é professora em Maringá
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