A raiva é um vírus? Uma bactéria? É trazida pelas correntes marítimas ou algum mosquito a transmite? Está no ar ou vem em surtos causados pelo stress? Com que rapidez se espalha?
Tanta gente contaminada, tomada pela raiva, esbravejando, trocando ofensas, incapaz de ver graça em cadeira de balanço ou pipoqueiro. Algumas pessoas são mais suscetíveis à raiva. Embora ataque por igual direitistas e esquerdistas (quanto mais no extremo da corrente, mais grave a situação), pessoas que trafegam no acostamento ou que jamais dão esmolas são os tipos mais característicos de portadores da raiva.
Exigir distância de imigrantes é um sintoma. Defender ditaduras é outro. Desprezar uma opinião contrária para no lugar cultivar intolerância é quase caso perdido.
Deve haver um antídoto, já testado em ratos – vida dura levam os ratos: quando não vivem em esgotos, são perseguidos por gatos ou trancados em laboratórios para experiências. Ou seja, têm bom motivo para ter raiva, daí a razão de terem sido escolhidos.
Consta que o antídoto foi extraído de algumas risadas no interior da Bahia. Misturado a três gotas de avôs que se emocionam com os netos é pá-pum. Também se encontra em paçocas, mares ora verdes, ora azuis (o que influi na concentração da fórmula) e rodas gigantes. Na falta desses ingredientes, ao menos 14 minutos diários de Mozart costumam ser eficazes.
Por que tanta raiva, gente? Você acha mesmo que aquela fechada no trânsito foi algo pessoal, de propósito? Que aquele caminhão quebrado queria causar o congestionamento? Que aquele seu amigo é um perfeito idiota por ter uma opinião diferente da sua? Ou a velhinha que surge na fila do banco e tem preferência, logo, passa à sua frente, o faz porque acha isso imensamente divertido?
Tanta raiva que a gente se esquiva de dar nossa opinião. Já deixamos de ir aos estádios de futebol, de abrir a porta do carro para uma mulher ou mesmo dar uma risada no meio da rua – hoje em dia, isso pode ser muito ofensivo.
É preciso fazer algo rápido. Certamente está na pauta das urgências a serem tratadas pelo Ministério da Saúde. Para esperança das maiores vítimas da raiva: cobradores, operadoras de telemarketing, caixas de supermercado e vendedoras da Avon. Ia incluir outros grupos, mas vai que desperta alguma raiva que descamba em ofensa e hoje estou com preguiça.
Mas eis que acabo de receber uma ligação no celular, tão inesperada quanto esperada. A conversa me deixou tão contente que contagiou este texto sobre a raiva. Difícil sorrir e ter raiva. Assobiar e ter raiva. O resultado é que não consigo mais escrever este texto sobre a raiva. Aberto o sorriso, fecho o texto.
Que o leitor não fique com raiva de mim, ao ser informado que o texto não é meu e sim de Cassio Zanata , um escritor a quem não conhecia, e foi compartilhado por uma amiga no facebook.
Já apreendi que não podemos ficar com raiva quando alguns se apropriam do que escrevemos e não nos dão o devido crédito. De minha parte estou me esforçando para ter cada vez menos raiva e ser cada vez mais justo com a propriedade dos outros. Mas faço minhas as palavras do Cassio e fico muito contente, a ponto de sorrir, por você ter lido. Sorria, você está sendo filmado pelo Mundo Espiritual.