Receita de 1918 pelo dr. Ulysses

Inúmeras foram as matérias de jornais que trataram da evolução da gripe espanhola, no ano de 1918, tanto as que relatavam a situação na Europa, como as de caráter nacional, estadual e local.

Porém, dentre todas elas, as mais apreciadas eram as que orientavam as pessoas a como proceder, principalmente, se eram matérias assinadas por médicos e ainda com conselhos médicos.

Este é o caso do texto publicado em 19 de outubro de 1918 no jornal A Federação pelo Dr. Ulysses, que fora inclusive, diretor de outro importante meio de comunicação o Jornal do Commercio, nos anos de 1910, além de Inspetor Federal de Lepra e Doenças Venéreas junto ao Departamento Nacional de Saúde – DNSP -, órgão federal da área de saúde, subordinado na época ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, que substituiu e ampliou as atribuições e o alcance da Diretoria Geral de Saúde Pública – DGSP, de grande atuação na pandemia da gripe espanhola.

O Dr. Ulysses Pereira de Nonohay havia nascido em Porto Alegre em 09 de julho de 1882, era Médico especialista em sífilis e doenças venéreas, sendo durante anos professor catedrático da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, criada em 1898, além de Diretor da Revista dos Cursos da Faculdade de Medicina e Membro da Academia Nacional de Medicina do Rio de Janeiro. Foi, também, membro da Sociedade de Homens de Letras do Brasil, tomando posse em 13 de setembro de 1944, entidade do tempo do Império, criada por Olavo Bilac e Emilio de Meneses, seguindo o modelo de Paris.

Destaque-se que o Dr. Nonohay defendia que o ensino da medicina estava destinado, especialmente, aqueles que apresentavam uma verdadeira aptidão natural e elevado padrão intelectual, sendo essa profissão um “apostolado leigo de constituição essencialmente moral”.

Como higienista, essa orientação da medicina ia perdendo seu caráter exclusivista de prevenir epidemias, para ser a criadora de uma consciência sanitária, e promotora da eugenia, como realizadora da profilaxia das doenças crónicas, e assim restituir à atividade indivíduos que a doença havia arruinado. Nesse contexto, defendia a articulação do indivíduo e o meio, e a saúde com a moral.

Um fato interessante da biografia desse médico, foi a sua participação, com outros dois colegas, como perito num caso de paternidade, que envolveu uma criança branca de nome Anna que havia sido retirada da Roda da Santa Casa, no ano de 1896, e criada por solicitação de um Senhor de sobrenome Quaresma, que provia à cuidadora e seu marido com 30$000 (trinta mil) reis, recebendo ainda mais 10$000 (dez mil) reis provenientes da Santa Casa.

A perícia foi realizada com base nas fotografias que se encontravam nos Autos às fls.  170 e seguintes.

Assim, amparados nessas fotografias; no retrato falado e em dados científicos afirmaram que os traços fisionômicos de Anna eram de semelhança tal que, absolutamente, se convenceram de uma intima relação de descendência genealógica entre a autora e o Sr. Quaresma.

Sendo que essa prova e o conjunto de circunstâncias que envolvem o caso os teria levado, firmemente, a crer e aceitar que Dona Anna era filha de Quaresma. O caso foi decidido em favor da Autora.

Como relatávamos, no artigo publicado pelo Dr. Ulysses no jornal A Federação 19 de outubro de 1918, ele analisou a situação da gripe e escrevia que “o público está alarmado com a ameaça da invasão na nossa cidade capital da influenza espanhola”, e que por essa razão julgava útil escrever um artigo, para o qual esperava que pudesse trazer a calma necessária e indispensável à própria resistência orgânica contra a infeção.

Afirmava que não era demais, que se soubesse, que o fator moral tinha uma grande influência, não só para a imunidade individual como também para a própria evolução da infeção. Explicitando assim sua forte tendência higienista.

Frisava que era nos esgotados pelos sofrimentos, pelas preocupações, pelo medo, etc., que a doença encontra o terreno apropriado à sua invasão e também para o desenvolvimento das formas graves.

Que fazer para tal? Se interrogava. Em primeiro lugar a antissepsia completa do nariz, da boca, da garganta, do aparelho digestivo.

Para a primeira, a lavagem completa das fossas nasais, com água e sabão, duas, três vezes ao dia e em seguida a aplicação larga manu de uma pomada antisséptica (vaselina mentolada, gomenolada, boricada, silicilada, fenolada ou outras) e que se faz facilmente com um pouco de algodão, montando num palito, ou em qualquer outro bastãozinho.

Segundo consta no dossier spécial Nouvelle-Calédonie o óleo essencial de niaouli também chamado de gomenol, foi produzido industrialmente desde final do século XIX, sendo que a fábrica, administrada pela família Prevet, a qual estava localizado no território de Gomen, daí o nome gomenol, portanto uma das industrias mais antiga da Nova Caledônia, inclusive a árvore foi, em 1896, manchete do jornal Le Figaro.

Se comenta que a aplicação industrial se deveu ao fato que em 1887, o industrial francês Jules Prévet, responsável pela fábrica de conservas instalada próxima da cidade de Gomen, atual Kaala-Gomen, observou que os nativos tinham um hábito muito estranho, que quando se machucavam, mastigam umas folhas perfumadas de uma planta da espécie Melaleuca quinquenervia, e depois a aplicavam em cataplasma em suas feridas.

Tal fato intrigou a Jules, que no seu retorna à França, levou a essência e confiou a dois cientistas, Bertrand e Gueguen, a tarefa de estudar os efeitos farmacêuticos, sendo confirmado que o uso da essência era curativa, antisséptica e anestésica.

Em maio de 1893, a marca “goménol” foi registrada no Tribunal Comercial de Paris e continuou sua viagem pelo mundo, que dura até hoje.

Mas, voltemos ao Dr. Ulysses e sua receita.

Para a boca e para a garganta, sobre os cuidados com os dentes, bochechadas e gargarejos com água oxigenada (uma colher de chá em um copinho de água morna), água boricada com partes iguais de água morna, solução de formol a 1%, com a primeira de fenol idem, etc. etc.

Lembremos que a água boricada apresenta uma ação antisséptica contra bactérias e fungos, ao igual que a vaselina gomenolado, sendo seu uso externo, como antisséptico.

Para o aparelho digestivo, ele recomendava que devia manter-se sempre livre o ventre, tanto pelo regime, quanto pela medicação, e deviam ser evitados os excessos de mesa, e principalmente de álcool; purgativos, quando necessários, ou diariamente, alguns comprimidos de fermento láctico, um pouco de coalhada, etc.

Eis todo um programa que dispensa esta série profilática pela vacina, pela cachaça (santo Deus!), pelo limão, pela quinina e… pela homeopatia.

Para ser coerente comigo, escrevia, devo em tanto dizer que a quinina é útil, porque sendo um dos melhores medicamentos contra as influenzas certo si não conseguir preveni-la talvez a faça abortar no início.

Ao lado dela deve-se incluir um outro, ainda não falado, mas que de muito é um dos melhores agentes terapêuticos da gripe. É a canela de Ceilão que, usada largamente em pó ou em infusão, substituirá, talvez com vantagem, a quinina, cujos preços já escapam a muitos bolsos…


(*) Jorge Villalobos é professor em Maringá

(Fotografia. Museu da Farmàcia Catalana)