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As medidas de proteção das equipes médicas em Harbin, 1910

Em abril de 1911, a Primeira e única Conferência Internacional, relacionada com a Peste de Manchúria, se reuniu em Mukden (Shenyang), para debater os aspectos epidemiológicos e de saúde pública do surto e uma questão relevante foi o fato, que dito evento, se realizou com os casos da peste em franca evolução.

Assim, os dados aportados possuem uma dupla relevância, pois foi um debate científico, do mais alto nível, com a doença em curso e no local onde havia o maior número de casos.

Dentre os temas debatidos, um concentrou a atenção dos pesquisadores, provavelmente, em razão da morte do médico francês dr. Gérald Mesny, que era diretor da escola de medicina chinesa em Tien-Tsin, e foi um dos primeiros a ajudar as autoridades russas no controle da doença e que morreu quase que, imediatamente, após o início dessa tragédia.

Inclusive, em homenagem ao d r. Mesny, foi construído um monumento na sua cidade de nascimento em Brest na região da Bretanha, sendo a execução da obra confiada ao artista Jean Boucher, na qual representou ao médico e a uma figura secundária de uma mulher da Manchúria, também conhecida como “La Peste” ou “La Chinoise”, com um queimador de perfume, tragicamente, a obra foi destruída na segunda guerra mundial.

Mas, voltemos aos debates ocorridos nessa conferência.

No setor que estava sob a administração do dr. Sun, tanto a sala administrativa, quanta a sala na qual se cuidava da desinfecção, estavam instaladas em um grande complexo, anteriormente, usado como uma escola para crianças.

O edifício que estava na área norte servia como escritório, e nele havia sido instalada uma divisória de janela de vidro, através da qual, em várias pequenas aberturas de vidro, podiam ser enviados documentos e recebidos os relatórios. Sendo que os mensageiros transitavam pelo lado de fora por uma longa passagem.

Os relatórios eram recebidos por um funcionário do escritório, que imediatamente os mergulha em uma solução antisséptica e, quando secos, entregava-os ao responsável de plantão.

Após as informações serem lidas, o relatório era arquivado somente quando necessário, caso contrário, era queimado na parte externa do prédio.

Destaque-se que ao lado dessa sala, havia um espaço destinado para servir chá e bebidas, utilizado, somente, após o serviço.

Em direção ao sul do conjunto, havia um longo do corredor, com portas separadoras, e no início desse corredor um grande alpendre, pelo qual todos os médicos, enfermeiras e estudantes, ao entrar ou sair de serviço, eram pulverizados da cabeça aos pés com uma solução de ácido carbólico 1/40 partes.

Após isso podiam entra na sala, na qual deviam retirar toda a roupa e assim, em um estado de nudez entravam no banheiro, lavando primeiro as mãos, o rosto e a cabeça, nessa ordem, com uma solução e fazendo gargarejo de boca e garganta com um antisséptico.

Logo, na sequência entravam numa banheira com produtos específicos e seguiam para um banho de água pura e para uma sala de secagem, onde eles se vestiam com os macacões, capacetes, máscaras e luvas, juntamente com botas longas que estavam nesse lugar.

As roupas infectadas, como as que podiam ser lavadas, eram colocadas numa bacia com uma solução especial e as outras eram fumigados com formalina e gás de enxofre.

Também havia sido definido um local específico, que tinha uma estrutura similar, porém destinado à desinfecção e banho com produtos sanitários, das macas, e dos carrinhos de transporte dos falecidos. Destaque-se que todos os carros, ambulâncias, macas e as carruagens eram lavadas ou pulverizadas, diariamente, com antissépticos.

Assim, simultaneamente, com as medidas de quarentena e de profilaxia, foi determinada a proibição da caça das marmotas ou de tarbagans, haja vista, que eram elas, para a maioria dos cientistas da época, as causadoras da doença nos seres humanos.

A ordem previa o que segue:

1. Qualquer pessoa encontrada em posse de armadilhas ou outros instrumentos para capturar Tarbagans teria essas armadilhas ou outros instrumentos confiscados, e não seria permitida a continuação da atividade;

2. Qualquer veículo encontrado transportando peles de Tarbagans ou Tarbagan é passível de confisco, sendo que o motorista do carro e o caçador serão punidos;

3. Qualquer barraca, destinada ao uso de caçadores de Tarbatgan e para guardar peles de Tarbagan, encontradas pelos funcionários do Governo pode ser queimada, e qualquer caçador encontrado desobedecendo a norma será punido com 6 meses de prisão;

4. Nenhum chinês ou russo está autorizado a vender peles de Tarbagan, e qualquer um que desobedecer a regra será preso e entregue às autoridades competentes para punição;

5. Assim, qualquer chinês que desobedecer a norma será julgado pelas autoridades chinesas locais. Sendo que qualquer russo que desobedecer a essa ordem será entregue às autoridades russas para julgamento.

A doença de Manchúria, levou, após a formação da República da China (1912 – 1949), à constituição do Serviço de Prevenção da Doença da Manchúria do Norte, liderado pelo dr. Wu Lien Teh, diretor assistente do Colégio Médico Imperial em Tientsin, sendo que esse órgão continuaria estudando a peste até sua dissolução em 1931.

Também vale lembrar que o caso da doença de Manchúria, reforçou a importância da Convenção de Paris de 1907, que objetivou a criação de uma nova instituição destinada a Higiene Pública (OIHP), com sede em Paris, inclusive convenção assinada pelo Brasil, “para coletar e chamar a atenção dos Estados participantes de fatos e documentos de natureza geral, que sejam de interesse para a saúde pública, e especialmente no que diz respeito a doenças infecciosas, em particular cólera, peste e febre amarela, bem como as medidas tomadas para combater essas doenças”.


(*) Jorge Villalobos é professor em Maringá

Fonte: Richard P. Strong et al. Report of the International plague conference held at Mukden. Manila: Bureua of Printing, 1912.

Fotografia.  Documentos do Dr. Richard Pearson Strong, em repositório na Francis A. Countway Library of Medicine da Universidade de Harvard, e podem ser acessadas usando o mecanismo de busca VIA (Visual Information Access). Doença da Manchúria de 1910-1911.

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