Relendo a “Carta de Caminha”

Reli, após muitos anos, a “Carta de Pero Vaz de Caminha”. A certidão de nascimento do Brasil. Muito bem escrita, por sinal. Registra cenas e detalhes da chegada dos portugueses ao litoral brasileiro. Por exemplo, a imagem que surgiu no céu, os fura-buxos, uma espécie de ave aquática.


Sem fazer juízo do que significou o contato com os índios e o processo de posse da nova terra, a carta de Caminha é uma obra-prima. Não consta que ele fora escritor, mas a escreveu de forma brilhante. O objetivo era persuadir o rei dom Manoel I para libertar seu genro, Jorge de Osório, que praticara furtos e extorsão a mão armada. De caráter íntimo, o documento ganhou notoriedade histórica.

Caminha morreu naquele mesmo ano, 1500, em combate na índia. A carta levada a Portugal ficou nos arquivos até 1817. Quando o historiador português Manoel Aires do Casal a divulgou. Cada parágrafo dela é uma revelação. Do avistamento do monte, que chamaram de Pascoal, à “vergonha exposta” dos índios, na praia.

O contato é recheado de expectativas, portugueses e índios não tinham noção do que acontecia. Diogo Dias, irmão de Bartolomeu Dias, que estava na expedição, acompanhado de um gaiteiro, saiu pela praia em passos de dança. Em meio aos índios, ele dá várias cambalhotas. “Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real”.
Em cada trecho da carta verifica-se a preocupação dos portugueses com o cristianismo. Observavam cada atitude dos índios para analisar se seriam ou não “bons cristãos”. A inocência daquele estranho povo os cativava, pois ser manso, lhes parecia um atributo do “bom cristão” que desejavam que fossem.

Narração deliciosa. Texto da melhor estirpe do “jornalismo narrativo”. O original da Carta de Caminha está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. O dia em que eu for a Portugal, vou vê-la. Será emocionante, não?


(*) Donizete Oliveira é jornalista desde 1986, mestre em Comunicação pela UEL. Celular e WhatsApp: (44) 99963-2181