O grito e as nossas independências

Por muitos anos, o grito de dom Pedro, às margens do Ipiranga, povoou meu imaginário. “Independência ou morte”, em 7 de setembro de 1822, era uma espécie de dístico que me soava familiar. Ouvi primeiro do meu pai, que contava causos do imperador, sempre com elogios rasgados ao monarca português.
Mais tarde conheci os meandros do quadro do Pedro Américo, uma cena imaginária para o suposto grito do imperador. Também descobri que nossa independência custou 2 milhões de libras esterlinas aos combalidos cofres nacionais. Sem dinheiro, a saída do Brasil foi recorrer a um empréstimo da Inglaterra. Uma espécie de mãe de plantão. Só que dava com uma mão e retomava com as duas.
O dinheiro nem saiu dos cofres ingleses. Portugal lhes devia um polpudo quinhão. Dívida que começou com o Tratado de Methuen, em 1703. Ou Tratado dos Panos e Vinhos. Assunto para outro momento.
Mas falar da Independência do Brasil não é falar de um grito, um brado. Claro, ali, na cena que envolve dom Pedro, consolidou-se o tratado, mas o processo foi longo. Revoltas se sucederam. Por exemplo, a chamada Independência da Bahia, em 2 de junho de 1823. Quando os baianos lutaram bravamente para expulsar os português que resistiam a deixar o Brasil.
Em março também em 1823, houve ferrenho embate no Piauí, marcado pela sangrenta Batalha do Jenipapo. O Pará, que, segundo alguns historiadores, era uma espécie de extensão portuguesa, tamanha sua relação com os lusitanos, foi o último estado a aderir à Independência. Só o fez em 15 de agosto de 1823.
A Independência foi um processo doloroso, que derramou sangue. Festa mais bonita e autêntica é a baiana, em que o povo se reconhece e vai às ruas todo 2 de junho. Um desfile colorido e vibrante, com as gentes a comemorar a Independência de um Brasil que se revela em seus diversos matizes. Não o Brasil do grito de um homem só, que se faz ouvir entre os seus.
O grito e as nossas independências… Boa tarde, bom resto de feriado!
(Ilustração: François-René Moreau )