Os desafios da educação escolar no Estado do Paraná

Temos uma grande mudança prevista para ocorrer na educação do Paraná no próximo ano. O Governo estadual pretende implantar um modelo de gestão denominado “cívico-militar” em 215 colégios de 117 cidades paranaenses.

No novo modelo teremos um diretor civil e um diretor militar que imprimirão uma “orientação disciplinar mais rígida”. Segundo o diretor-geral da SEED, Gláucio Dias, informou ao Portal G1-Paraná, “nos colégios militares há uma forte tendência para formação para a carreira militar. Não é o caso do cívico-militar. Mas há, sim, um apreço maior, uma formação maior da disciplina, dos valores cívicos”.

Para a implantação do novo modelo foi realizada uma consulta pública junto aos professores, funcionários e pais e alunos matriculados na instituição com mais de 18 anos.

Devemos considerar que a educação escolar realmente está em crise no nosso Estado. Mas não podemos desconsiderar que a própria Polícia Militar do Estado do Paraná também vive uma situação de crise. Basta analisarmos as informações apresentadas a seguir para nos questionarmos se, de fato, a Polícia Militar do Estado do Paraná está preparada para assumir a responsabilidade de resolver a crise da educação paranaense.

            De acordo com uma matéria jornalística publicada no Portal G1 – Paraná – RPC, a partir de dados fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp-PR), entre 2015 e 2018, “foram instaurados 3.349 IPMs, sendo que a maioria apontou indício de crime, que pode ser, por exemplo, um ato de corrupção ou até um homicídio. Entre as transgressões às normas da Polícia Militar (PM) no Paraná, estão situações como ofender outro militar e exercer trabalho informal. As investigações que não apontam indícios de irregularidades por parte dos policiais são arquivadas pela Justiça Militar.

  • Em 2015, do total de 738 IPMs, em 43% houve indícios de crimes, em 10% de crimes e de transgressão, e em 3% de transgressão;
  • Em 2016, do total de 825 IPMs, em 41% houve indícios de crimes, em 8% de crimes e de transgressão, e em 2% de transgressão;
  • Em 2017, do total de 796 IPMs, em 41% houve indícios de crimes, em 12% de crimes e de transgressão, e em 2% de transgressão;
  • Em 2018, do total de 990 IPMs, em 43% houve indícios de crimes, em 8% de crimes e de transgressão, e em 2% de transgressão.” (Fonte: aqui)

Em um artigo científico publicado pelo Capitão da PMPR, Marco Antonio da Silva, e pela Psicóloga Helen Paola Vieira Bueno, que tem por título “O suicídio entre policiais militares na Política Militar do Paraná: Esforços para Prevenção”, “policiais são indicados pela literatura como integrantes de um grupo de risco de morte por suicídio”. O artigo discute “a autodestruição de policiais militares, bem como sobre os esforços para prevenir tais atos” a partir das “estatísticas de suicídios consumados na Polícia Militar do Paraná (PMPR), de 2013 a 2016 (até o mês de julho), demonstrando um recrudescimento dos casos nos últimos anos”.

A Polícia Militar do Paraná (PMPR), conta com o Serviço de Ação Social (SAS) que tem como missão realizar “atividades de prevenção ao suicídio de policiais militares e também compila as estatísticas dos óbitos auto infligidos”. “Segundo os registros do SAS (2016), no período de 2013 a 2016 (até julho desse ano), 21 policiais militares cometeram suicídio na PMPR”. (Fonte: REVISTA DE CIÊNCIAS POLICIAIS DA APMG São José dos Pinhais, v. 1, n. 1, p. 5-23, 2017).

            Por outro lado, são inúmeros os desafios para a educação escolar no Estado do Paraná e no Brasil. Entre esses desafios devemos lembrar que cabe à escola proporcionar aos estudantes o desenvolvimento de um conjunto de competências. Como exemplos de tais competências podemos citar:

  1. Imaginação na busca de soluções para problemas novos e inesperados;
  2. Capacidade de raciocinar logicamente sobre conteúdos simbólicos;
  3. Capacidade de compreender e de desenvolver os conhecimentos científicos;
  4. Entendimento do processo produtivo como um todo;
  5. Capacidade de avaliar as tendências de mudanças na sociedade, na cultura, na política, no mercado etc.;
  6. Precisão e adequação nas formas de comunicação escrita, oral e visual;
  7. Capacidade de desempenhar múltiplos papéis profissionais e de adaptação rápida às novas gerações de equipamentos e ferramentas;
  8. Responsabilidade, compromisso e persistência na busca dos objetivos projetados;
  9. Pensamento crítico e envolvimento ético na busca de soluções para os problemas sociais, do meio ambiente e em defesa dos direitos humanos dentro e fora do local de trabalho.

Acredito que a Polícia Militar do Estado do Paraná não pode ser responsabilizada pelo enfrentamento desses desafios educacionais apontados acima. Cabe aos próprios estudantes, seus familiares e responsáveis, educadores, pesquisadores da educação e gestores públicos decidirem democraticamente os novos rumos necessários para o enfrentamento da crise da educação no Estado do Paraná.


(*) Sociólogo – Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo – Professor do Departamento de Ciências Sociais da UEM