Esperanças

Tornou-se fato comum as pessoas emitirem diferentes opiniões sobre os rumos da pandemia. Por mais que se apresentem prognósticos, absolutamente nenhum estudo técnico ou científico tem condições de mensurar, com algum nível de precisão, o que nos aguarda no próximo ano. As variáveis são tão numerosas a ponto de inexistirem conclusões factíveis a respeito das incertezas quando da mudança no calendário.

O impacto da doença no cotidiano das pessoas, a reação do mercado de ações e sua influência na recuperação das economias pelo planeta, o retorno da confiança e dos investimentos públicos e privados, o “novo normal” impondo suas restrições, enfim, estamos sem ao menos uma bússola para atravessarmos o longo deserto logo à frente.

Evidentemente existe luz no fim do túnel. As vacinas estão chegando e a questão crucial é o tempo para que a imunização realmente aconteça. O problema é que em nosso País as coisas parecem andar a passos de tartaruga, quando o assunto é o atendimento às necessidades urgentes da população. Mesmo nessas situações de extrema gravidade, os governantes se digladiam através da mídia tentando explicar o inexplicável. A soberba que acomete nossos políticos quando resolvem assumir a paternidade por algo que seria uma obrigação precípua do gestor público, expõe as peculiaridades dessa classe arrogante, prepotente e pontualmente mal-intencionada.

Por conta do manjado “toma lá, dá cá”, estamos submissos a uma máquina administrativa obsoleta, enferrujada, agigantada pelos intermináveis cargos de comissão e pelos acordos espúrios, engendrados nos corredores do poder. Enquanto que em países de primeiro mundo a imunização avança e leva esperanças à população, por aqui as coisas caminham sem pressa, mesmo porque a “gripezinha” que já tirou a vida de quase 200 mil brasileiros ainda não teve o poder de sensibilizar o falastrão belicoso, o mandatário-mor, aquele que haveria de ser, com posturas coerentes, o exemplo maior para essa sofrida nação. É compreensível que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exija o cumprimento de todos os requisitos necessários para que se proceda a liberação de uma vacina segura. Também é de conhecimento público que existem diferentes opções de escolha para a aquisição dos imunizantes, entre os laboratórios fabricantes do medicamento. A questão é a forma politizada como está sendo tratada a pandemia, um descaso total para com a dignidade do ser humano.

O ano de 2021 será mesmo marcado por muitas incertezas. Seja pela incompreensão de parte da população em colaborar com as medidas de prevenção, fator que dificulta sobremaneira o controle da pandemia, seja pelo endividamento do Estado, muito além de sua capacidade de pagamento. Os gastos estratosféricos utilizados para fazer frente à demanda imediata da população serão cobrados no futuro, uma vez que os investimentos públicos estão seriamente comprometidos. Obviamente que, com o passar do tempo, as coisas lentamente retornarão à normalidade. Mas a participação de todos é extremamente importante para a superação desse momento delicado. Então, que venha 2021. Com suas incertezas, mas principalmente, com muitas esperanças.   


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

(Foto: Vladislav Murashko)

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