‘O meio pelo qual Deus procura salvar as pessoas’

Rainha Maria I, de Portugal, precursora antivacina

Mais uma aula do maringaense Laurentino Gomes, nas redes sociais:

Entre os argumentos antivacina que circulam nas redes, um baseia-se em fundamentalismo religioso: quem cura e quem salva é Deus e não a Ciência. Portanto, não caberia aos médicos ou à vacina salvar ou deixar que alguém morresse de Covid-19. A ideia, apesar de absurda, é antiga.

No livro “1808”, cito o caso da rainha Maria I de Portugal, uma precursora o atual movimento antivacina. Por razões religiosas, ela não permitiu que o filho primogênito, d. José, fosse vacinado contra a varíola. Achava que a morte a vida dependia só de Deus e não dos médicos.

Resultado: em 1788, dom José, herdeiro da coroa portuguesa, morreu de varíola aos 27 anos. Quem subiu ao trono foi o nosso conhecido dom João VI. Desse modo, o movimento antivacina de dois séculos atrás produziu uma dramática mudança na história do Brasil e de Portugal.

Importante observar que, nessa época, já existia na Europa um método de combate à varíola chamado “variolação”, diferente e mais primitivo do que a moderna vacina, criada em 1796 pelo médico britânico Edward Jenner.

Usada na China, na Índia e em Constantinopla, a “variolação” consistia em recolher amostras de uma pústula de varíola ainda ativa, portanto com o vírus ainda contagioso, e aplicar em uma pessoa saudável. A “eficácia global” era reduzida, mas, bem ou mal, ajudava a salvar vidas.

A vacina do Dr. Jenner, embora inspirada na técnica da “variolação”, usava outra cepa do virus da varíola, de origem animal, comum em rebanhos bovinos, mas relativamente inofensiva em seres humanos.

Em resumo, a carola dona Maria I não percebeu que a “variolação”, mesmo rudimentar, era o meio pelo qual Deus procurava salvar as pessoas. Tanto quanto as vacinas de hoje são um modo pelo qual nos ajuda a superar essa terrível prova que por um mais de ano paira sobre a humanidade.

(Imagem: Thomas Hickey ou Giuseppe Troni)