Isolamento social, prisão política e Coronavírus

Mês de abril de 2020. Na véspera do enfrentamento do pico da mortífera epidemia do Coronavírus, Covid-19, somos bombardeados pela mídia dia e noite, com o mantra da obrigatoriedade do confinamento da população em suas casas como única arma para conter a disseminação do maldito vírus, latego de um castigo que o heroico povo brasileiro não merece, mas tem de enfrentar e vencer.
Há poucos dias li dois excelentes textos, um do Frei Betto e outro do Vitório Sorotiuk, informando como eles enfrentaram na prisão política o isolamento e como bravamente resistiram.
Na mesma linha vou escrever sobre os períodos em que fui preso político e como me comportei no confinamento. Antes, como historiador, vou fazer um pequeno relato contextualizando a época descrita.
Vivíamos os terríveis e perigosos dias da Guerra Fria onde, como protetorado dos EUA, o regime militar implantado no dia 1º de abril de 1964 obedeceu as ordens do Império norte americano e dominou com mão de ferro a nação brasileira.
Na primeira fase, 1964–1974, pequenos destacamentos guerrilheiros com seus estandartes tremulando erroneamente deflagaram uma luta armada desigual fadada desde o início à derrota. Resultado do erro estratégico: a fina flor da juventude brasileira foi presa, torturada e morta por um inimigo implacável.
Na segunda fase, 1974–1985, novamente recebendo ordens do Pentágono, os militares acionaram uma lenta e gradual abertura que desembocou na entrega do poder para os civis em 1985. Vinte e um anos tinha se passado desde o golpe militar de 1964. Mas, vamos ao que me propus. Por três vezes cai prisioneiro em ações desencadeadas pelos órgãos de repressão da Ditadura Militar (Dops e DOI-Codi), nas cidades de Maringá, Apucarana e Curitiba.
Posso dizer que nas celas onde fiquei detido por quase um ano minha maior preocupação era manter alta a moral, nunca me abatendo ou desanimando, sem achar que tinha chegado ao fim a minha trajetória de revolucionário. Desde a chegada aos locais em que fiquei prisioneiro, passada a fase dura dos interrogatórios inquisitoriais, procurei caminhar todos os dias, seja nas pequenas celas ou no vasto espaço onde fiquei alojado sob o comando do Coletivo dos Presos Políticos do Presídio do Ahú, na capital paranaense. Para manter a saúde física e mental, evitando as neuroses da prisão que abatiam nossos companheiros mais frágeis, a direção do Coletivo dos Presos Políticos estimulava todos os prisioneiros a cumprir a seguinte rotina:
- Caminhadas diárias
- Em pequenos grupos, fazíamos ginástica
- Tomávamos banhos diários
- Bebíamos no mínimo dois litros de água
- Gostando ou não dos temperos, nos alimentávamos bem.
Por fim, muita leitura. No meu caso lia muito, quase sem parar, aproveitando a sorte do nosso alojamento abrigar a Biblioteca do Ahú, onde aliás li pela primeira vez o livro “Minha Luta”, escrito pelo ditador nazista, Adolfo Hitler. À noite, tínhamos o Ciclo de Palestras onde os companheiros eram convocados pela direção do Coletivo dos Presos Políticos a proferirem palestras com temas políticos ou sobre episódios marcantes das suas vidas. Esse meu período de prisão durante a Operação Marumbi findou em 1976. No dia 28 de agosto de 1979, o general João Batista Figueiredo assinou a Lei de Anistia decretando o fim da ditadura militar. Sou, com mais 300 companheiros de todo o Brasil, um dos anistiados da última lei de anistia brasileira.
Aos 81 anos sigo firme, pronto para resistir a mais um confinamento.
(Texto originalmente publicado em abril de 2020)
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