Num instante em que o número de cadáveres produzidos diariamente pela Covid encosta na casa dos 2 mil, Jair Bolsonaro manifesta o desejo de levar a voz e o rosto aos lares dos brasileiros numa transmissão em rede nacional de rádio e TV. O pronunciamento ocorreria na terça-feira, às 20h30. O horário chegou a ser reservado. Mas o presidente recuou. Cogitou falar na noite de quarta-feira. Desistiu novamente. Aliados de Bolsonaro aconselharam-no a lapidar o discurso, ajustando-o a uma pandemia que mudou de patamar.
A aparição pode ocorrer a qualquer momento, pois o presidente não abandonou a ideia de falar para uma plateia mais ampla do que a arquibancada de suas redes sociais. Encanta-se com a perspectiva de ser levado ao ar pela TV Globo minutos antes do Jornal Nacional. Um de seus auxiliares faz troça, afirmando que o chefe “precisa divulgar o que o William Bonner esconde ou distorce.”
A novidade é que surgiram na cozinha de Bolsonaro vozes que destoam da ladainha dos colaboradores que, como ele, querem ver o sangue dos adversários. Essas vozes alternativas sustentam que a tática de botar a culpa em alguém, continua sendo útil para animar o bolsonarismo nas redes sociais. Mas perdeu o prazo de validade para o restante dos brasileiros.
Fora da bolha virtual, cresce a percepção de que a falta das vacinas que a União demorou a comprar eleva o custo social e econômico da crise sanitária. Não se imagina que o capitão fará um mea-culpa. Mas espera-se que ele gaste mais energias construindo a própria imagem do que destruindo a de terceiros. Leia mais.
(Foto: Marcos Corrêa/PR)