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Nordestinos desbravam o Norte e o Médio Oeste do Paraná e fundam vilas e cidades

Desbravadores do Médio Oeste do Paraná posam na década de 50 com majestoso tronco de Ipê em cima de caminhão

A desbravação das regiões do Norte e Médio Oeste do Estado do Paraná, nas décadas de 40 e 50, foi realizada por trabalhadores rurais sem terra oriundos do Nordeste do Brasil. A imensa floresta que cobria as mencionadas regiões paranaense foi posta abaixo por um exército de peões integrado por cerca de 1.000 homens liderados pelo pernambucano João Tenório Cavalcanti, que liquidou a formidável floresta decretando a morte dos seculares cedros, paus-marfim, figueiras, paus-d’alhos, jaracatiás, a peroba rosa e os esquivos palmitos, reduzindo grande parte a cinzas, nas queimadas que somavam léguas. Segundo consta, era comum no mês de agosto a ocorrência da bruma seca, originada pela fumaça, cobrindo a região, dificultando até os vôos dos aviões “teco-teco”. No rastro de Tenório e seus homens, mais 100 empreiteiros de derrubadas punham fim à mata inigualável do Norte do Paraná que encobria a famosa terra roxa, habitat ideal para o plantio de milhões de pés de café.

Foto rara: única imagem do lendário João Tenório Cavalcanti, comandante da “força expedicionária” de 1.000 homens que pôs abaixo a majestosa floresta do Norte do Paraná. É o segundo, da esquerda para a direita

Os camponeses nordestinos, fazendo as vezes de “sapadores”, limparam o terreno para, posteriormente, milhares de lavradores paulistas, mineiros, gaúchos e estrangeiros comprarem seus lotes de terras e se tornarem prósperos proprietários e senhores da região. A cada mata derrubada, os peões nordestinos sem terra refluiam para o Oeste, realizando na “marra” a desbravação e colonização dos vazios geográficos do país. Expulsos para os dois Mato Grosso, Rondônia e Paraguai, os obstinados migrantes que só tinham de seu a sua força de trabalho, eram tratados como se fossem laranjas que depois de chupadas são jogadas na cesta de lixo. Comentando sobre o formidável feito da caboclada nordestina na luta pela sobrevivência um jornalista da cidade de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, declarou:

“É sempre assim: o nordestino chega, luta, desbrava, abre caminho. A terra cresce, se valoriza, chegam imigrantes e migrantes com mais dinheiro e técnica e os ‘baianos’ não resiste. Vai procurar um lugar em que a coragem ainda seja mais importante que o trator e o capital”.

Nos idos de 40 e 50 do século passado, graças a esses heróis anônimos, foi possível erguer-se no Norte do Paraná, cidades do porte de Maringá, Londrina, Apucarana, Paranavaí, Umuarama e Campo Mourão. Já, na região do Médio Oeste do Estado do Paraná, um cearense arretado de alta estatura e cabeça chata, abandonou o cargo de gerente do Banco Bradesco, na cidade de Apucarana, para tornar-se a frente de uma legião de camponeses nordestinos, seus conterrâneos, desbravador e fundador das cidades de Assis Chateaubriand, Nova Aurora, Tapejara e Iracema do Oeste.

E, às vésperas desta mudança radical na sua vida, ao invés de preocupar-se, alegrava-se com o fato e com as perpectivas que se abriam ao seu espírito aventureiro, bem típico do nomadismo do povo cearense considerado, na sociologia de botequim, “o judeu brasileiro”. De uma coisa tinha certeza, e reconhecia num sorriso malicioso: nunca mais esqueceria as meigas e loiras descendentes de ucranianos e poloneses que habitavam o município de Apucarana, e que se revelaram estupendas mulheres nos folguedos do amor. Jovem e compulsivamente mulherengo, Adízio Figueiredo dos Santos, sabia que esse “defeito”, ou “qualidade”, lhe acompanharia pelo mundo afora até o fim dos seus atribulados dias. Mas, o que mais o orgulhava era o sentido da sua missão. No fundo do coração, tinha consciência de que, mais uma vez, um nordestino na sua diáspora sem fim pelo corpo geográfico do Brasil, tinha cumprido silenciosamente seu dever para com sua pátria, cimentando, com paixão, um tijolo no alicerce da unidade nacional numa parte do antigo território do Vice-Reinado do Rio da Prata.

Quarenta e quatro anos depois da sua grande aventura, no dia 25 de agosto de 1979, a Câmara de Vereadores de Assis Chateaubriand concede a Adízio Figueiredo dos Santos, o título de cidadão honorário do município. Emocionado, o desbravador nordestino agradeceu a honraria:

“Só um povo bom, com um coração tão grande, com uma alma tão gentil é que poderia encontrar alguma coisa de tão merecedora em minha pessoa”.

“Ouço os passos dos brasileiros que convergem para o Paraná, através de todos os caminhos da Pátria Grande… Vêm do Nordeste, ressequido e superpovoado, com a intrepidez e a coragem dos que lutam sempre e se habituaram a lutar sem esmorecer, para abrir sertão e fazer o cafezal avançar. O Brasil marcou encontro no Paraná”.

Governador Bento Munhoz da Rocha Netto

Obras para serem consultadas:

Este é o quarto artigo da “Galeria dos nordestinos que inventaram o Paraná”, publicado originalmente em 2019 (mais aqui)

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